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17/07/2007

A nossa Terra é sagrada - Carta do Chefe Índio Seattle



Carta do Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta do Governo norte-americano de comprar grande parte das terras da sua tribo Duwamish, em troca da concessão de uma reserva.


Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-los?
Para o meu povo, não há um pedaço desta terra que não seja sagrado. Cada agulha de pinheiro cintilante, cada rio arenoso, cada bruma ligeira no meio dos nossos bosques sombrios são sagrados para os olhos e memória do meu povo.
A seiva que corre na árvore transporta nela a memória dos Peles-Vermelhas, cada clareira e cada insecto que zumbe é sagrado para a memória e para a consciência do meu povo. Fazemos parte da terra e ela faz parte de nós. Esta água cintilante que desce dos ribeiros e dos rios não é apenas água; é o sangue dos nossos antepassados.
Os mortos do homem branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da Terra que é Mãe. Fazemos parte dela. E a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos.
As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família. Se vendermos esta terra, não ireis, decerto, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada. Como poderei dizer-vos que o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai...
Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, trazem até nós os peixes… E, além do mais, cada reflexo nas claras águas dos nossos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes. Sim, Grande Chefe de Washington, os nossos rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.
Se vos vendêssemos a nossa terra, teríeis de recordar e de ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E é por isso que eles devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a um outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã mas como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.
Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe interessa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua Mãe-Terra e o seu Irmão-Firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem tal como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devora a terra, deixando atrás de si um completo deserto.
Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do homem pele-vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.
O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me: que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou o diálogo nocturno das rãs em redor de uma lagoa? Sou um pele-vermelha e não consigo entender. Nós preferimos o suave murmúrio do vento sobre a superfície de um lago, e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.
Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido desta terra, quando a sua sombra não for mais do que uma lembrança, como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos esta terra como uma criança ama o bater do coração da sua mãe.
Se decidisse aceitar a vossa oferta, teria de vos sujeitar a uma condição: que o homem branco considere os animais desta terra como irmãos.
Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecer, abandonados nas pradarias, mortos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, que apenas matamos para sobreviver.
Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. Se tudo desaparecer, o homem pode morrer numa grande solidão espiritual. Todas as coisas se interligam. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos sobre a terra: que a Terra é nossa Mãe e que tudo o que lhe acontece a nós acontece aos filhos da terra.
Se o homem cuspir na terra, cospe em si mesmo. Sabemos que a terra não pertence ao homem, mas que é o homem que pertence à terra. Os desígnios terrenos são misteriosos para nós. Não compreendemos porque os bisontes são todos massacrados, porque são domesticados os cavalos selvagens, nem por que os lugares mais secretos dos bosques estão impregnados do cheiro dos homens, nem porque a vista das belas colinas está guardada pelos “filhos que falam”.
Talvez um dia sejamos irmãos. Logo veremos. Mas estamos certos de uma coisa que talvez o homem branco descubra um dia: o nosso Deus é um mesmo Deus. Agora podeis pensar que Ele vos pertence, da mesma forma que acreditais que as nossas terras vos pertencem. Mas não é assim. Ele é o Deus de todos os homens e a sua compaixão alcança por igual o pele-vermelha e o homem branco.
Esta terra tem um valor inestimável para Ele e maltratá-la pode provocar a ira do Criador. O que é feito dos bosques profundos? Desapareceram. O que é feito da grande águia? Desapareceu também. Mas o homem não teceu a trama da vida: isto sabemos. Ele é apenas um fio dessa trama. E o que lhe faz, fá-lo a si mesmo.
Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um fio e está a desafiar a desgraça se ousar destruir essa rede. Tudo está relacionado entre si como o sangue de uma família. E, se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos. Assim se acaba a vida e só nos restará a possibilidade de tentar sobreviver.

Plantar árvores para curar a terra


Desde a independência do Quénia, nos anos 60, que o governo tem trabalhado para modernizar o país, mas muitos problemas se têm deparado. À medida que a população cresce, mais árvores são cortadas para se obter terra para cultivar e lenha para cozinhar e aquecer. Sem as raízes das árvores para segurar a terra, as chuvas fortes fazem desaparecer o solo fértil. As florestas estão a dar lugar a novos desertos.


Esta é a história de alguém que está a trabalhar para melhorar a vida dos habitantes do Quénia. O nome dela é Wangari Maathai, e o seu trabalho não é nada fácil.
Wangari Maathai foi uma das quenianas que tiveram a sorte de receber uma formação académica. Na escola, disseram-lhes, a ela e aos outros jovens, que seriam eles os futuros líderes do país. Teriam a responsabilidade especial de trabalhar para ajudar o povo queniano. Wangari tomou a sério esta responsabilidade. Quando acabou a escola e viu o que estava a acontecer à terra, decidiu ajudar a plantar árvores. Não umas poucas árvores no jardim lá de casa, nem algumas centenas numa pequena floresta, mas milhares de árvores, milhões mesmo.
O seu primeiro projecto não correu muito bem. Conseguiu obter de graça seis mil árvores, mas estas eram frágeis, com raízes pequenas e apenas algumas folhas. Decidiu dá-las a plantar a pessoas que precisavam muito de trabalho. Mas essas pessoas não tinham nem as ferramentas necessárias, nem dinheiro para irem de autocarro até ao trabalho. Acresce que, devido a uma época de seca excessiva, o governo decidiu que não se podia utilizar água nos jardins. Apenas duas das pequenas árvores não morreram. Foi um começo muito desencorajador.
Por essa altura, Wangari foi a uma conferência das Nações Unidas no Canadá. Conheceu pessoas como Margaret Mead e Madre Teresa, pessoas com muita experiência no que dizia respeito a melhorar as vidas dos outros. Isso deu-lhe forças para continuar a tentar, mas percebeu que não poderia fazê-lo sozinha.
Wangari voltou para o Quénia e fundou uma associação de mulheres de todo o país. O seu primeiro projecto foi levar líderes importantes a plantar sete árvores em Nairobi, a capital do Quénia, em honra de sete heróis quenianos importantes. Conseguiram ver as suas fotografias no jornal e obtiveram muita publicidade. Infelizmente, as pessoas que deveriam ter tomado conta das árvores não lhes deram água suficiente. As árvores depressa morreram.
Em seguida, Wangari e a associação estabeleceram o objectivo de plantar milhões de árvores em terrenos públicos. As pessoas que viviam perto olhariam por essas árvores. Chamaram ao projecto “Salvem a Terra Haram-bee” (Ha-rahm-BAY quer dizer ”Caminhemos na mesma direcção”).
O departamento florestal do governo gostou dos projectos das mulheres e concordou em dar-lhes, de graça, plantas semeadas. Mas quando o comité pediu quinze milhões de plantas ainda novas, o departamento decidiu que não podia ser assim. Quinze milhões eram demasiado.
Isto deu outra ideia a Wangari. Além de ajudar a terra, queria dar poder às pessoas que não o tinham. Por que não treinar as mulheres para criar viveiros de árvores? Assim, as mulheres poderiam ganhar dinheiro ao fornecer-lhe as árvores que ela queria plantar.
A ideia funcionou. As mulheres foram ensinadas a fazer enxertos de árvores que cresciam naturalmente nas suas zonas. Aprenderam a plantar árvores, a cuidar delas e a gerir um pequeno negócio. Estavam a aprender a ajudar-se a si próprias e, ao mesmo tempo, a ajudar a terra. Era maravilhoso.
Em breve, as pessoas começaram a plantar os tipos certos de árvores, da forma correcta. Plantavam-nas em fila, de modo a servirem de barreira contra o vento e a manter a humidade do solo. À medida que as árvores cresciam e os seus ramos se expandiam, podiam ser podadas. As que eram abatidas serviam como lenha. O que era igualmente maravilhoso.
Todas as rádios e televisões davam notícias sobre as plantas e as árvores novas. Chegaram cartas de escolas, de igrejas, de instituições públicas, a pedir árvores para plantar. A ideia de Wangari ganhou um novo nome. Passou a chamar-se Green Belt Movement.
Por todo o Quénia, tanto nas cidades como nas aldeias, as pessoas começaram a formar associações. Os membros do Green Belt reuniam-se para explicar a importância das árvores. Arranjavam ferramentas de jardim, tanques de água, e davam formação àqueles que eram contratados para olhar pelas árvores. Muitas vezes, contratavam pessoas com deficiências, para as quais encontrar trabalho era ainda mais difícil. Centenas de pessoas conseguiram assim emprego.
Wangari descobriu que, frequentemente, as pessoas plantavam as árvores com grande entusiasmo, mas que depois desistiam de cuidar delas. Por isso, muitas árvores morriam. Então, os membros do Green Belt tentaram uma ideia nova. Sempre que se plantavam novas árvores, prometiam mandar a essas pessoas dinheiro pelas árvores que ainda estivessem vivas, seis meses depois da plantação. Saber que seriam monetariamente recompensadas fazia com que as pessoas fossem mais cuidadosas com as pequenas árvores enquanto estas criavam raízes.
Wangari estava preocupada, porque muitos plantadores de árvores tinham trazido novos tipos de árvores que cresciam rapidamente. Estas podiam ser cortadas e vendidas mais cedo do que as árvores naturais do Quénia. As pessoas descobriram que, assim, conseguiam dinheiro mais depressa. Mas as árvores que são plantadas para serem abatidas dentro de poucos anos não resolvem o problema da erosão do solo. E estas árvores perturbam o equilíbrio próprio da natureza. Além de lenha e material para construção, as árvores nativas do Quénia fornecem igualmente forragem para animais, frutas, mel e ervas medicinais, coisas que as árvores importadas não provêm.
Wangari está a trabalhar arduamente para ensinar às pessoas que as árvores nativas são melhores para o Quénia e apercebe-se de que os seus esforços não têm sido em vão. Em apenas doze anos, foram criados mil e quinhentos viveiros de árvores. Mais de dez milhões de árvores nativas foram plantadas em terrenos públicos pelo Green Belt Movement. Muitas estão em cinturas verdes perto de escolas e são as crianças da escola que tomam conta delas. Mais de um milhão de crianças fazem este trabalho. Cada criança cuida de uma ou de duas árvores.
Em 1989, o Global Windstar Awards deu a Wangari Maathai dez mil dólares pelo seu trabalho de plantação de árvores e de defesa do ambiente no Quénia. As pessoas perguntaram-se o que iria ela fazer com todo esse dinheiro. Na cerimónia de entrega do prémio, anunciou que o daria a viveiros de árvores e às associações do Green Belt Movement noutras partes de África.
Wangari Maathai fala sobre “aquilo que há de Deus” em todos nós. Acredita que “o que há de Deus” é a nossa capacidade de nos importarmos com as pessoas – todas as pessoas – e com a nossa terra preciosa.



Janet Sabina e Marnie Clark

Uma viagem no verde - J. J. Letria

Acordei com a palavra água
a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,
e fui beber. O dia, lá fora, estava azul
e tinha o tamanho de um rio
ou de uma cidade fantástica, e sorria.

O sorriso do dia é igual ao do sol.
É largo e branco. Tem dentro
os frutos doces da calma das manhãs,
e se for Verão são capazes de matar
a fome e a sede que têm os bichos,
que têm os homens, que têm as casas.

As casas? Também têm sede, uma sede
branca como a cal dos muros
que arde nos lábios e queima a garganta
que fala e que canta, que diz azul
e sonha outras cores, outros sítios;
uma sede que arrasta outra sede
e se veste de mar para fingir
que a não tem, que não quer saber dela.

Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou
doente do fumo e da pressa do voo.
Quero um ramo alto para fazer poiso
e só encontro telhados, antenas de televisão,
cidades com tosse, nuvens tristes, aviões
carrancudos nas estradas do céu.

É um pássaro bonito de asas largas
e penas cor de arco-íris. Gostava de ser
um pássaro assim, eu que também
não gosto do fumo nem da pressa do voo.
Fica poisado no meu dedo a falar-me
do mapa das coisas que tem na cabeça,
a cantar-me as cantigas de vento
que traz na ponta do bico, a dizer
que o Inverno é um sopro gelado
que magoa o sol e os ossos das casas
e enregela a casca das árvores
e as escamas brilhantes no dorso dos peixes.

Para mim o Inverno é não estar ninguém
em casa quando a gente volta
das terras quentes da beira do mar
com a boca a saber a morangos silvestres.

O pássaro sabe os segredos da sombra
das estátuas quietas nos jardins
mas não os conta a ninguém. Leva-os
guardados na bagagem do voo
e diz-me adeus lá de cima, empurrando
uma nuvem de fumo com a ponta da asa,
riscando o silêncio da noite
com a música que aprendeu a voar.

Como se chama? Que nome é que tem?
Vejo-o partir e nem lhe pergunto.
Há-de voltar quando for tempo, há-de voltar
na estação das ondas mansas trazendo notícias
dos bandos que cantam por cima do mar.

Depois de água, digo pedra
e na pedra vejo os nomes antigos
de reis e princesas, de magos e bruxas,
de cavaleiros andantes que andam cansados
das guerras já feitas, das por fazer,
das que moram nos livros da história,
das que deixam sinais na lembrança.

Andam tristes os bichos da terra
por verem crescer cidades sem sol
sobre as pedras esquecidas,
perdidas no tempo com tudo por contar.
«Vamos salvar o que resta das pedras!» —
dizem os bichos da terra, sentados
em círculo à volta do fogo, e eu oiço-os
falar e oiço-os sonhar e dou-lhes razão,
razão que sobra para os ajudar.

Depois da água e da pedra, digo fogo
e fico a tremer, não de frio, mas de medo,
com medo de ver a floresta ardida, a casa
queimada, o cereal em cinza, o pão
por fazer. Oiço sirenes, gritos na noite
e volto a tremer com medo do fogo, da chama
que chama mais fogo, mais fogo. Chega a água
e apaga o lume. Saltam da toca os bichos da terra
e fazem uma roda contentes, por verem
a seiva a correr, a floresta de novo
a cantar com árvores velhas, sábias e firmes
dançando belas canções de embalar.

Cai uma lágrima do rosto da lua
e é branca e limpa como um floco de neve.
Que dor a faz chorar? «Anda inquieto,
triste, zangado, e quem sofre é a paz!»
Na rima que faz, razão não lhe falta.

Entretém-se o poeta com esta lua redonda,
cansada de noites e noites no centro do céu
a servir de candeia contra a escuridão.
Que se guerreiem não gosta, faz-lhe doer
o seu rosto de lua, o círculo branco
das coisas que sente, das coisas que sabe.

Está lá em cima poisada há tanto, tanto
tempo que já se esqueceu da idade que tem,
dos nomes que teve nos livros antigos
dos povos que deram a forma do arado,
ao fogo, ao ferro e à roda. É mãe das marés
e gémea dos ventos, companheira das águas,
vizinha de sombras e dos vulcões. Anda agora
aflita por ver ferros em lugar de abraços.
E chora como só as luas sabem chorar:
lágrimas brancas como pérolas que chegam
à terra e se tornam crateras fundas
para guardarmos os sonhos melhores.
Apago a luz logo que a noite vem e fico a olhá-la,
triste por não poder tocar-lhe.

No rio que passa perto de mim
queixa-se, azul, um peixe pequeno. Diz:
é o óleo que mata cardumes, cavalos marinhos,
que suja os corais, as algas, as praias.
Falas iguais têm outros peixes, pequenos e grandes,
Azuis ou vermelhos. Sofrem a mesma dor:
uma dor de água turva, que faz arder
os olhos e deixa nas guelras
um gosto amargo que sabe a doença.
Tens razão, pequeno peixe azul
da profundeza do mar.

Vejo um barco à vela que leva crianças
brincando na proa e molhos de sonhos
tapados com panos de linho no meio do convés.
Sabe histórias do rio e do mar
e só tem pena do tempo que passou,
sentido por não poder navegar. Segue
a rota do peixe debaixo da onda,
e quando divide a espuma em metades iguais
parece um deus antigo, vindo de um continente
perdido no oceano das lendas.
Quero ir neste barco, mas não posso.
Só posso sonhar que vou. As viagens que faço
são sempre assim: sonhadas, sonhadas,
como se nunca mais acabassem,
como se nunca chegassem a começar.

Já disse água, azul, fogo e pedra.
Depois disse seiva, pássaro e lua.
Estas palavras são o meu alimento
e a minha memória. É com elas que vivo,
que moro e que brinco. O que sou é isto:
um duende-poeta, um gnomo-cantor
que sabe o tudo e o nada da vida das coisas
e se afunda nelas até perceber
o que são, o que querem, o que sofrem.

Nasci da água ou do vento, pouco importa.
Mal acordo, bebo o sumo da aurora,
a água que sobra das estrelas. A minha
casa é uma árvore gigante, cercada de verde
até onde a floresta acaba e o céu começa.
As palavras que digo dão corpo
às coisas que penso, e o que penso é
uma vontade grande de não ver morrer
a planta, o rio, a ave, a memória branca
que há dentro das pedras.

Duende-poeta é o que sou. Nunca fui bobo
de corte nenhuma. Saio do esconderijo
que tenho secreto debaixo de um ramo
e dou os bons-dias à Primavera, aceno
com o meu gorro de folhas frescas
para os amigos que faço por toda a parte.

Quiseram caçar-me, pôr-me enjaulado
Num jardim zoológico, mas eu escapei sempre,
que um duende-poeta não morre nas redes
de quem o persegue. Gnomo-cantor é o que eu sou,
e o meu canto é verde como o dos arbustos jovens
à beira das dunas, à boca do mar.
Tenho tão pouco, quase nada para dar:
só esta maneira de fazer poesia a falar.

Gosto dos bichos, das sementes, das pedras
raras que há nos abrigos da noite. Que mal
é que tem? Sou um duende-poeta, e as lembranças
que tenho não são de ontem, são de amanhã,
do tempo que as estrelas me dizem
que ainda está para chegar, que as aves
me contam que não pode tardar. E se às vezes
rimo a falar é por saber a música salgada
das ondas bravas do mar.


Não me podem apanhar, que eu sou tudo
aquilo que vejo e que amo: a floresta,
a duna, o rio, a maré, a seara de luz,
o galope do vento num areal feito de prata.

Sou irmão do homem quando o homem
é irmão daquilo que eu amo. Se não for,
nem tempo perco a estender-lhe a mão.


Como sou um duende-poeta, acordo
com sede de sol, de água e de espuma
e uma flor azul a bater imensa no coração.




José Jorge Letria
Uma Viagem no Verde
Lisboa, Vega, 1989

adaptação

Adelaide vai à ópera - Tatjana Hauptmann

A senhora Adelaide Caracol está a preparar-se para uma grande noite. Tem novamente um espectáculo na Opereta dos Caracóis e vai cantar o papel principal.
Espreguiça-se em frente ao espelho a estudar a sua parte. De cantar, não precisa, só fazer de conta, porque os caracóis não ouvem. Passa a tarde inteira a dar os últimos retoques ao seu papel.
Enquanto isso, Alfredo Caracol, o seu marido caracol, toma banho na banheira nova, que há uns dias caiu tão repentinamente do céu. É certo que tem uma rachadela mas caiu numa tal posição, que a água da chuva não sai.
O tempo passa a voar. Adelaide dá um toque a Alfredo para que se despache e vá tratar do Norberto.
Norberto é o filho caracol e o caracol mais lento das redondezas. Passa o tempo todo colado ao tecto da sala, ao lado do lustre; é o lugar cativo dele. Lá de cima consegue ver quase tudo o que se passa.
Ele lá desce, contrariado, e desliza, carrancudo, aos empurrões ao morango de futebol. Preferia ficar em casa a brincar com o filho do vizinho. O teatro não lhe interessa absolutamente nada e até o acha enfadonho.
Mas, para a senhora Caracol, é das coisas mais importantes. Dá um toque ao Norberto para lhe dar uma mãozinha com o vestido de noite.
Nos corninhos põe o chapéu que o Norberto lhe trouxe do armário. Mas está nervosa e hoje nada lhe agrada.
Norberto traz-lhe um chapéu atrás do outro e já está quase sem fôlego.
A Senhora Caracol quer agora o chapéu com canudinhos de couve que está no fundo do armário. Norberto já está farto de remexer nos chapéus e, sem que a mãe caracol se aperceba, dá-lhe o primeiro, com a cardamina. Finalmente, ela decide-se por esse.
“Porque não se decidiu logo no início?”, pensa Norberto e, ofendido, encolhe os corninhos.
A família caracol desliza pela casa numa grande excitação. A Senhora Caracol, porque tem medo do palco, o Senhor Caracol, porque ainda não estão prontos. Só o Norberto é que não sabe lá muito bem porque está excitado. Talvez por ser sempre muito lento e agora ter de se despachar.
O relógio já mostra as cinco horas e o pano sobe às oito.
O senhor Alfredo Caracol zanga-se porque ainda ninguém inventou um relógio para caracóis que ande mais devagar. É que ele é director de uma grande fábrica de cola e, pela manhã, os trabalhadores chegam todos sempre tarde ao trabalho.
A senhora Caracol embrulha-se na écharpe de noite mas, assim que se vê ao espelho, assusta-se de tal forma que toda a Vivenda Caracol estremece. A écharpe está murcha e toda comida nas pontas pelas lagartas! Com o choque, a senhora Caracol fica com os olhos arregalados e começa a revolver o armário todo num frenesim. Tira daqui uma gola de bicos de salsa, dali um véu de erva para os corninhos, que usou no casamento e já está todo seco. Como não consegue separar-se dele, volta a pô-lo no armário.
O senhor Caracol já está tão excitado, que até ficou pálido. Ele já está pronto: colou o laço ao pescoço e pôs orgulhosamente o chapéu alto nos corninhos.
Enquanto Adelaide se polvilha com pólen-de-flor e se perfuma com perfume de alface, o senhor Caracol repara que Norberto já não está ali.
“Mas onde é que este caracolzinho se tornou a meter?”, pensa ele, enquanto segue o rasto de baba que o filho deixou pelo caminho. Desliza para fora da porta, pelo carreiro do jardim abaixo e depois pára. O rasto de baba leva-o à roda de um carro e o Norberto está sentado mesmo no meio da jante.
A senhora Caracol também já lá vem deslizando. Está magnífica! Em vez da folha de alface murcha, colou malmequeres no decote. O senhor Caracol fica muito vermelho por causa do perfume e o Norberto começa a tossir.
Sobem para a roda, para junto do Norberto e elogiam-no pela boa ideia que teve em como chegar ao Teatro Caracol de uma forma tão rápida e confortável. Mas a jante não é um lugar lá muito seguro. De repente, o motor começa a trepidar e a roncar com um barulho ensurdecedor e a viagem inicia-se.
A família Caracol começou a ver tudo a girar à sua volta e ela encolheu-se nas suas casas. Colaram-se à roda com quanta força tinham, senão ainda seriam projectados em arco para a estrada.
Norberto até acharia muito engraçado, se não estivesse tão enjoado. A senhora Caracol está quase a desmaiar.
Que contentes ficaram quando o carro finalmente parou. Deslizaram logo da roda o mais depressa que puderam.
O senhor Caracol limpa o suor da testa e a senhora Caracol volta a dar forma ao chapéu. O Norberto perdeu o laço mas no meio da excitação ninguém reparou. Pragueja e gesticula com os corninhos:
— Também não era preciso termo-nos apressado tanto — diz. — Chegámos cedo de mais. E agora, o que é que vamos fazer?
A senhora Caracol acalma-o e lá deslizam calmamente pelo último troço de caminho que os leva ao teatro, onde todos aguardam a chegada da senhora Caracol.
Apesar de toda a excitação por que passou, esteve fantástica no seu papel. Centenas de flores caem no palco, o público está entusiasmadíssimo e elogiam-na como uma diva da ópera.
O senhor Caracol está todo inchado de orgulho.
O Norberto já se recolheu há muito na sua casinha e… adormeceu.


Tatjana Hauptmann
Adelheid geht in die Oper
Zurique, Diogenes Verlag, 2004
Tradução e adaptação

Viagem ao alto de um ramo - Alexandre Honrado

Trepa devagar, a arrastar o corpo
inteiro. Trepa o raminho, mais
parece um arranha-céus, mais
parece um arco-íris, lá em
baixo um formigueiro.

Quem é pequenino, do tamanho de um
botão, do tamanho de um segredo
pequenino, parece perdido no
mundo, num mundo de gigantes.
Cá de baixo, as folhas lembram
barrigas de elefantes.
As flores que abrem são
chapéus de chuva preguiçosos...

Trepa e vai contente, assim feliz
por trepar, que no cimo do raminho
há muita coisa para ver,
muito mais para contar.
Mil coisas para olhos curiosos.

Lá no fundo corre um rio,
corre apressado direito ao mar.
Para se ver o rio
é preciso trepar mesmo ao alto do raminho.
Mas não se vê de lá o mar…
Agora há um problema porque o ramo
Tem uma folha que é preciso contornar.
Trepar, assim devagar, é mesmo muito difícil,
difícil até cansar. Vem o vento, abana o ramo.
Credo, que aflição! Quem é mesmo
pequenino vive sempre em desalinho.

Voa o pássaro e observa, espreita com atenção:
— Para onde sobes, amigo?
— Vou ver o céu e o rio e o que mais se pode ver.
Vai o pássaro para o ninho fica o ramo a meio caminho.

Vai devagar, é claro, e já se sente cansado.
Trepar, trepar, trepar.
E o vento, endiabrado, que não pára de soprar.
Chega o ouriço pelo chão, levantando o nariz e diz:
— Boa vista aí do alto?
— Por enquanto é só trepar.
Quando lá chegar ao cimo,
mais terei para te contar.

Trepar, trepar, devagar. Bate-lhe o sol na cabeça.
O tronco, só por desfeita, tem outra folha travessa.
E o vento, turbulento, que não deixa de soprar.
— Queres ajuda, queres que assopre?
— Obrigado, meu amigo.
Mas eu penso que consigo
chegar lá sem a tua ajuda.

A borboleta dá pinotes,
mostra as cores todas que tem.
Se usasse laçarotes, talvez lhe ficassem bem…
— Boa viagem, boa subida.
Queres uma asa emprestada? —
diz a borboleta colorida
descarada, ladina e muito atrevida.
— Cá vou na subida, não preciso da
tua asa. E o mais que me faltar
tenho eu aqui em casa.
Trepa, faz mais um esforço.
Evita as folhas do caminho.
Passear devagarinho
Também tem as suas grandezas.
Vem a joaninha, janota, faz chacota da subida.
Mostra as pintas, tão negrinhas,
parece a noite às bolinhas:
— Trepa, trepa. Se calhar, um dia hás-de chegar.
— Trepo, trepo. Se calhar, hoje mesmo vou chegar.

Já se vê uma maçã, aqui mesmo
deste lado. Subir, assim, sossegado,
deixa ver muitas belezas. Vem uma lagarta,

nas bochechas da maçã. Boceja, pede
desculpa, pergunta se é de manhã.
— Não é tal, já veio a tarde. Já o sol se
sossegou. E a lua (podes ver)
também já se levantou.

Sai a lagarta da maçã,
vem um besouro a passar:
— Isto são horas de acordar?
— Estava-se tão bem ali.
Parece que consegui
achar sítio para morar.
Trepa, trepa, e vai ouvindo,
ouve tudo o que se diz. E está
próximo do cimo, afinal como ele quis.

Lá no alto muda tudo. Há um penedo para ver,
um mundo para conhecer.
Uma casa acolá, para lá um girassol…
E digam que não é boa a vida de um caracol…



Alexandre Honrado
Viagem ao Alto de um Ramo
Porto, AMBAR, 2002

As Quatro Portas do Céu - Rosa Lobato de Faria

O céu tem quatro portas.
A porta branca onde mora um velho chamado Inverno, a porta verde onde mora uma menina chamada Primavera, a porta amarela onde mora um rapaz chamado Verão e a porta dourada onde mora um homem chamado Outono.
O Inverno sai da sua porta branca com um saco cheio de maravilhas e verifica que a tinta da porta está um bocadinho esmurrada. Volta atrás a buscar uma trincha e conserta aquela pequena mancha. Depois segue, um bocado rabugento, e como não quer que o vejam, tira do saco uma embalagem de nevoeiro e espalha-o pelo caminho. Fica tudo cinzento e, embora esta não seja a sua cor preferida, sempre a acha melhor que os castanhos de mil e uma tonalidades que o Outono deixou atrás de si.
O Inverno, como já perceberam, não gosta de dar nas vistas, por isso sai no dia mais curto do ano, 21 de Dezembro, convencido de que ninguém dá por ele. E de facto, às vezes estamos tão entretidos a preparar o Natal que nem o sentimos.
Por onde passa, vai deixando a Natureza arrepiada. As árvores largaram as últimas folhas (algumas!, porque outras, chamadas de folha perene, nunca se despem da sua roupagem). Os bichinhos escondem-se nos seus abrigos onde guardaram comida para os meses frios. As formigas, por exemplo, são muito previdentes e fazem sempre isso. Há animais, como os ursos, que dormem durante a época em que não há comida. Metem-se nas suas cavernas e ali estão quentinhos a hibernar, a poupar energias, para não darem de caras com nevões e outras coisas de que não gostam. Há ainda os pássaros que, não podendo sobreviver ao frio, preferem ir passar esses meses para lugares mais quentes do planeta, para depois voltarem a casa, como nós fazemos no fim das férias.
É por isso que o Inverno é um bocado resmungão. Não encontra quase ninguém pelo caminho a não ser árvores despidas e bichinhos assustados. Às vezes encontra pessoas, mas não dá para conversar, porque elas vão à pressa para casa, embrulhadas nos seus agasalhos, a soprar bafo quente para as pontas dos dedos.
Irritado com esta falta de atenção, o Inverno tira do saco uma chuva torrencial, de que todos fogem, mas que é uma das suas maravilhas porque vai alimentar os rios e preparar a terra para mais tarde desabrochar.
Entretanto os homens já cortaram a madeira (só a indispensável) e já a puseram a bom recato, semearam e protegeram produtos da horta que fazem falta na nossa alimentação, como agriões, alfaces, espinafres, ervilhas, tomate e temperos como a salsa e os coentros. E semearam o centeio, para fazer mais tarde aquele pão escuro e saboroso, do qual, comido quentinho, até o Inverno gosta...
Mas o Inverno não está agora a pensar nisso. Quando está aborrecido e lhe apetece ver um espectáculo, autoriza as nuvens a fazerem uma brincadeira aparentemente parva, que é atirarem-se umas de encontro às outras para provocarem descargas eléctricas; põe os trovões a ribombar e os relâmpagos a iluminar a noite e delicia-se com aquele fogo-de-artifício.
As nuvens gostam muito do Inverno; ele dá-lhes imensa importância, deixando, inclusivamente, que elas substituam o azul do céu. Ficam vaidosíssimas e, além de largarem água cá para baixo, entretêm-se a fazer noites escuríssimas, de meter medo. Só a lua lhes dá resposta quando, principalmente em Janeiro, espalha pelo céu um luar de que o Inverno muito se orgulha por ser, dizem, o mais bonito de todos.
O Inverno guarda para o fim a sua maravilha preferida. Depois de ter largado todo o frio, de ter feito gelar a água das fontes e dos lagos, de ter espalhado ventos fortíssimos em todas as direcções, de ter coberto tudo de geada, de ter feito chover granizo que lembra as pedrinhas brancas de milhões de colares rebentados, de ter levantado as ondas quase até ao céu, o Inverno diz ao mar e ao vento e às nuvens que se aquietem e tira do saco o seu mais lindo brinquedo, que é branco e frio e fofo e que se chama neve. Cobre tudo com ela e aí passa-lhe o mau humor porque vê as crianças saírem para brincar e ouve-lhes as gargalhadas e observa o que as pessoas inventam, como carrinhos, esquis e trenós, e regala-se, quando anoitece, com o silêncio que envolve aquela zona da Terra. É como se tivesse oferecido ao mundo um manto branco e o mundo se aconchegasse debaixo dele.
Então o Inverno adormece. Fica tão sossegado que nem nota que a Primavera abriu devagarinho a porta verde e se vem aproximando no seu passinho de dança.
O Inverno tem, sempre teve, um grande fraquinho pela Primavera. Nunca lhe disse nada porque ela é muito nova e ele um velhote, não quer aborrecê-la com conversas parvas. Quando acorda e sente no ar o cheiro cor-de-rosa do vento, sabe que chegou o momento de voltar à porta branca e preparar-se para fazer outras invernias noutras paragens da Terra.
Então, para deixar um presente à Primavera, inventa uma flor linda que parece uma estrela, quase prateada de tão branca, e vai pousá-la, como um segredo que a Primavera terá que descobrir, lá no pico mais alto dos Alpes. Fica admirado com a sua invenção, mas não tem que espantar-se porque o amor é o maior inventor de todo o universo e faz coisas lindas como essa flor-estrela chamada Edelweiss.
A Primavera chega descuidada, diz de longe um adeusinho ao Inverno que já vai a caminho de casa e põe-se a brincar com as borboletas. Mas ao chegar, ali pelo dia 20 de Março, toma bem conta se os sapos, as cobras e os morcegos estão de boa saúde, pois precisa deles para se alimentarem de insectos e ratos que de outro modo estragariam as culturas.
A Primavera às vezes parece tonta porque espalha ventos carregados de pólens que nos fazem espirrar e esfregar os olhos, mas ainda bem que ela tem essa preocupação porque é assim que se reproduzem as flores que ela traz nos cabelos. Ela é amiga do sol mas também das chuvas miudinhas, pode dizer-se que a Primavera é amiga de todos e gosta de andar pelos campos a ver nascer cordeirinhos, cabritos, vitelos e potros, isto em Portugal, porque se fôssemos a falar de outros países, não tinham conta os animais que ela faz nascer, desde leõezinhos a elefantes, de renas a ursinhos panda, passando por milhões de outros bebés.
Se a Primavera colhe muitas flores, também semeia algumas, como cravos, amores-perfeitos, dálias e crisântemos, para que possamos ter flores todo o ano sem ter que as mandar vir de outros países. A Primavera gosta de acolher os pássaros que chegam de férias (chamam-se aves migratórias) e que não são só as andorinhas (que conhecemos bem por fazerem os ninhos nos beirais das nossas casas) mas também as rolas, os gansos, as cagarras, os patos bravos.
O que se nota logo é que a Primavera gosta de tudo quanto é novo, de tudo o que principia, de tudo o que é cheio de vida, é como se o mundo fosse feito e refeito por ela todos os anos. A Primavera quer ver a Terra a desabrochar, por isso não se cansa de andar de um lado para o outro. Às vezes desenha no céu um arco-íris com a ponta dos dedos, outras faz nascer plantas com o hálito da sua boca perfumada, outras ainda veste as árvores de folhinhas tenras só de passar-lhes de leve a mão pelas ramadas.
Em 1478 houve em Itália um pintor chamado Botticelli que pintou um quadro que representa a Primavera, não com um só rosto mas com vários, incluindo os do vento, do amor, da flora, e da deusa da beleza (que se chama Vénus ou Afrodite). Estão num pomar cheio de frutos e de flores e de movimento, como se uma brisa ali passasse e fizesse nascer aquela formosura toda.
Lá para o meio do mês de Junho a Primavera, com a boca cheia de morangos, começa a preparar-se para descansar. A Natureza já recebeu os seus presentes e agora antecipa a chegada do Verão. A Primavera, a caminho de casa, gosta de encontrar-se com ele, que é um rapaz muito bonito, bronzeado e forte. Ficam um momento a conversar, ali por volta do dia 21 de Junho, que é o dia mais longo do ano e por isso dá tempo para esses vagares.
O Verão vem com toda a calma (calma também quer dizer calor, por isso é duas vezes verdade). O amarelo é a sua cor preferida e a que melhor fica à sua pele morena. Tirou-a do sol, das praias, dos campos que vão ficando amarelecidos à medida que ele avança. O Verão é louco por umas boas ondas, um surf, um vólei de praia mas também por um trigal ondulante, um cantar alentejano ou um barco pelo rio acima. O Verão gosta de ver guarda-sóis às cores pelas esplanadas e muitas crianças em férias. O Verão tem sede: gosta de frutos sumarentos como as ameixas, as rainhas-cláudias, as melancias, e acha engraçado apanhar melões, que também são amarelos. Assiste sempre à tosquia dos rebanhos, que é como quem despe os casacos aos carneiros para não terem calor. Outra alegria do Verão é andar pelos milheirais, correr pelos campos ou sentar-se a observar como os passarinhos mais novos aprenderam a voar tão bem e ouvir os seus chilreios pelas tardinhas. O Verão não perde uma ceifa: gosta de ouvir as mulheres a cantar e, quando anoitece, fica deitado no restolho a olhar as estrelas que parecem falar pela voz das cigarras.
No dia 22 de Setembro, já com as uvas maduras na videira, o Verão vai andando tranquilo para a sua porta amarela, não sem antes cumprimentar o Outono, que sai nesse dia e é um senhor cheio de sensibilidade (dizem que é pintor), e o Verão sente por ele muita amizade e respeito.
O Outono preocupa-se primeiro com as vindimas, mas antes dá ainda umas pinceladas douradas nas uvas brancas, púrpura nas pretas, para que o vinho que delas nasça seja delicioso como um néctar.
Depois começa a ocupar-se do arvoredo onde exerce os seus dotes de artista.
Baixa a temperatura, aos poucos, para que os meninos que já estão em aulas se não constipem. E depois o Outono, que além de pintor é um grande maestro, cria uma sinfonia de verdes escuros, castanhos, roxos, vermelhos e dourados na folhagem das árvores.
O Outono manda reduzir as regas e abrir covas para as árvores novas, ceifar o arroz, apanhar a azeitona e colher a amêndoa, indispensável nos doces portugueses. Não se esquece de plantar os morangueiros para que a Primavera possa deliciar-se com a sua fruta preferida. Mas também as cerejeiras, as pereiras e as macieiras. O Outono preocupa-se com o futuro e não quer a beleza do mundo só para si. E porque também gosta do conforto, manda acender as lareiras, diz às árvores para atapetarem os caminhos com as suas folhas caídas e lembra às aves migratórias que podem partir. Então elas despedem-se com muitos pios arrepiados e, a caminho do Sul, fazem longas filas que enfeitam o horizonte como uma fita bordada.
O Outono gosta de conviver. Por isso ele vem na época das longas conversas e também dos longos silêncios, de qualquer modo um tempo em que as pessoas comunicam não só pelas palavras mas também pelo coração.
Então, pelo S. Martinho, o Outono convida os colegas para passarem o dia com ele. O Inverno raramente aceita o convite porque tem frio e não lhe apetece sair de casa. Mas a Primavera e o Verão nunca faltam. É tempo de festa, de comer castanhas e provar o vinho novo e então, só porque eles saíram da porta verde e da porta amarela, o dia acorda primaveril, com uma suave brisa matinal e ao meio-dia está quente como se fosse Agosto.
(O ano desta história foi excepcional e o Inverno apareceu com o saco de estrelas e lançou alguns cristais de neve por cima dos telhados. Ficou lindo e de manhã o Verão derreteu-os antes de ir para casa).
O Outono, que tem predilecção por bibliotecas, casacos de malha e crepúsculos suaves, sugere sempre às pessoas que juntem estas três coisas e leiam bons livros, dos quais se lembrarão toda a vida, sobretudo enquanto houver bibliotecas, camisolas de malha e finais de tarde entre o dourado e o lilás.
O Outono gosta de criar uma ambiência especial, luminosa e serena, que faz as pessoas sentirem uma certa quietude na alma.
Talvez seja por isso que os poetas gostam do Outono.
Esta é a história das quatro portas do céu e quem a contou à Maria e ao António foi o próprio Outono, poucas semanas depois de terem começado as aulas, quando a professora pediu uma composição sobre as quatros estações e eles estavam sem saber o que escrever.
Perceberam tudo muito bem. Nunca mais disseram que o Inverno é uma chatice e o Verão é que é bom, porque entenderam que uma menina, fresca e alegre, que gosta de correr entre as árvores e ver nascer as flores e os cordeirinhos, pode ser amiga de um senhor velhote de nariz vermelhusco e ambos de um rapaz que gosta de surf e campos de restolho, e todos de um homem culto, que gosta de livros e de castanhas assadas, capaz de os juntar para beberem o vinho novo no dia de S. Martinho.
O Outono também lhes disse que a vida das pessoas tem quatro estações como o tempo. Primeiro somos novos e estamos, como a Primavera, a começar tudo e a aprender a sonhar; depois somos adultos cheios de força e energia como o Verão; mais tarde ficamos sensatos e sábios como o Outono; e por fim tornamo-nos, como o Inverno, um bocado rabugentos, mas ainda capazes de inventar uma flor.
Todas as idades, como todas as estações, têm o seu encanto, o que é preciso é coração para senti-las e amá-las tal e qual como elas são.
Como a porta dourada estava entreaberta, o António e a Maria ainda puderam ouvir uma música linda que vinha lá de dentro.
— Que música é esta?
— Foi escrita por um padre que tinha o teu nome, António. Chamava-se António Vivaldi e publicou-a em 1725, há quase três séculos, vejam lá! Chama-se “As Quatro Estações”. Se ouvirem com atenção, hão-de reparar que a música diz tudo o que diz esta história porque nem só as palavras servem para comunicar.
— Podemos pôr isso na composição?
— Numa composição pode pôr-se tudo, é para isso que as composições servem. Mistura-se o que se sabe com o que se sente, junta-se o que se inventa e aí até podem acontecer coisas mágicas como abrir portas no céu e conversar com quem imaginamos que lá mora.
Até hoje o António e a Maria não sabem se sonharam com estas coisas bonitas e um bocado malucas ou se elas surgiram à medida que se puseram a reparar melhor na Natureza, a ler mais livros, a ouvir com mais atenção o que os mais velhos vão contando.
A verdade é que tiveram a melhor nota da turma na composição sobre as estações do ano.

Rosa Lobato de Faria
As Quatro Portas do Céu
Porto, Edições Asa, 2001
adaptado

O Bosque Mágico - Maurice Genevoix

Havia em certo bosquezinho da Terra um reino encantado onde reinavam dois reis muito simpáticos.
Era no tempo em que os homens ainda não tinham conquistado tudo e atravessado tudo com as suas auto-estradas, os seus postes de electricidade e até o próprio céu com os riscos brancos dos seus aviões supersónicos.
Naquele bosquezinho não se ouvia outro barulho que não fosse o toque-toque do picapau no tronco do carvalho, o canto da toutinegra tagarela, ou então a canção do vento, solene e grave, por entre a ramaria das árvores.
Que paz, que abençoado sossego! Ali, todos os bichinhos viviam felizes, em boa harmonia uns com os outros, graças aos dois reis simpáticos que reinavam cada qual por sua vez, um durante o dia, outro durante a noite. Um era louro, de carinha rosada, olhos azuis, cabelos encaracolados e luminosos como o nascer do Sol. Chamava-se Antalcitor. O outro era moreno, de face pálida (mas viçosa como uma camélia branca), olhos negros (mas transparentes como a fonte à sombra). Chamava-se Galaor.
Faço muito empenho em dizer-lhes os nomes, principalmente por serem os nomes deles e ninguém lhos poder mudar. Teria sido igualmente prático chamar-lhes Louro e Moreno. Mas isso são apelidos de gente, e Antalcidor e o seu amigo Galaor eram ambos geniozinhos. Geniozinho do dia e geniozinho da noite. Vou tentar contar-lhes agora exactamente como as coisas se passavam.
Realmente não podia ser mais simples. Assim que a madrugada fazia empalidecer a noite lá no extremo do Atalho Maior, assim que a cotovia soltava o seu primeiro trinado, Antalcidor aparecia ao longe, no limite do bosquezinho.
Tinha o aspecto de um belo rapaz de dezasseis anos, mas que não tivesse mais de três palmos de altura, quando muito. Vestido de cetim cor-de-rosa, seda branca e fitas azuis, fina espada de prata, um salpico de oiro na gravatinha e na fivela do cinto, brilhava como um pedacinho de céu sob o túnel da folhagem.
Mal tocava com os pés na relva. Mas não tinha pressas; aqui, dava lustro a uma folha de junquilho, além, cheirava uma primavera. De vez em quando parava, olhava para a direita, para a esquerda, batia as palmas e cantarolava uma cantiga de geniozinho, a canção matinal do render da guarda:

A pé! A pé! É já manhã!
O meu reinado principia.
O rei da Noite adormeceu;
P’ra o seu lugar aqui estou eu,
Antalcidor, o rei do Dia.


E lá ia, de narizito no ar, só interrompendo a cançoneta para dar gargalhadas e ordens:
— Salta, esquilo! Do pinheiro para o bordo, patas esticadas, cauda bem desfraldada! Apoia-te no vento que passa! E tu, ó toutinegra? Porque esperas, tagarela? Põe-te a tagarelar! E tu, ó pica-pau? Onde tens o gorro verde e encarnado? Pica, pica-pau! E tu, ó pombo azul? Arrulha! E tu, melro preto? Assobia!
E batia as palmas, despertando a ervinha e a flor, o primeiro sopro da aragem da madrugada, a gota de orvalho poisada numa folha, a tagarelice da toutinegra, o arrulho do pombo azul, o toque-toque do picapau no tronco do carvalho e o trinado alegre do melro.
— És tu, Antalcidor? Estou a dormir.
— Já?
— Ou quase... Já são boas horas de chegares.
Sem forças, semicerrando as pálpebras de pestanas escuras, Galaor acolhia o recém-chegado. Era sempre à mesma hora, debaixo da árvore mais linda do bosque, num sítio que se chamava Coração-de-Estrela, porque ali vinham dar todos os caminhos e atalhos.
A árvore de Coração-de-Estrela erguia-se exactamente ao centro, tanto assim que se via de toda a parte, enorme, gigantesca, cobrindo a clareira com a sua copa sussurrante e frondosa.
Era um bordo, de casca prateada, cujas raízes tinham levantado a terra, formando um pequeno montículo coberto de musgo. O palácio real ficava aí, entre duas dessas raízes, enormes, nodosas, mas tão suavemente arqueadas que nenhuma casa humana poderia ser tão sólida e agradável, nem tão sumptuosa nem tão bela.
Não havia tecido algum, de brocado ou damasco, que pudesse rivalizar com o musgo espesso e cheio de reflexos doirados. O luzidio das raízes brilhava como couro de Córdova. A neblina da madrugada e a neblina do entardecer suspendiam graciosos cortinados mais transparentes que a mais fina cambraia.
Aranhas tecedeiras entrelaçavam os fios, armadilhas para o orvalho de pérolas tremulantes porque nenhum insecto ali caía.
Não havia nada mais macio nem mais fofo que o chapéu dos cogumelos novos, aqueles que se chamavam boletos-pão-de-ló. Nunca houve rei dos homens que se sentasse em trono almofadado mais fofo, de tom mais rico e mais quente que o trono-cogumelo, o trono-boleto-pão-de-ló, em cima do qual os geniozinhos do bosque se sentavam.
Nunca ambos ao mesmo tempo, já se sabe. Assim que Antalcidor aparecia, Galaor levantava-se para se ir embora. Mal tinham tempo para trocar os bons-dias.
O geniozinho da noite piscava os olhos, bocejava, sacudia o veludo negro do gibão.
Debruçado sobre a corola de uma flor, bebia o orvalho da manhã.
— Está tudo em ordem? — perguntava Antalcidor.
— Tudo em ordem.
— Até logo à noite?
— Até logo à noite — respondia Galaor. — Ao primeiro voo do noitibó.
E partia imediatamente. Nunca se soube para onde. Deviam descansar em qualquer sítio, lá para os limites do bosque, num outro palácio desconhecido, esse absolutamente secreto. Nem sequer me sinto no direito de falar nele.
Chegado o momento, o geniozinho reinante via apa¬recer o seu amigo, sempre lá ao fundo do Atalho Maior. Acolhia-o no palácio real, entre as raízes do grande bordo, cedia-lhe amavelmente o trono, bebia da corola de uma flor alguns goles de água perfumada e desaparecia durante doze horas: um até ao nascer do dia, o outro até ao cair da noite.
Era assim que as coisas corriam. Não podia estar tudo melhor combinado. Nunca havia arrelias, nunca havia discussões, nunca havia sarilhos, como se costuma dizer. E a verdade é que não haveria a mais pequena história a contar, a não ser uma história sem complicações (mas, apesar de tudo, linda como um galopar de corça ou um voo de andorinha) se...
Aconteceu tudo por culpa do besouro, da espécie isca-riscada, pesado e peludo. Não era um besouro mau; apenas demasiadamente zumbidor como todos os besouros do mundo; mas, além disso, muito cheio de si e de melindres.
Era de dia, um dia igual a todos os outros, calmo e primaveril (naquele bosque estava-se sempre na Primavera) com bocadinhos de céu azul que passavam pelo intervalo das folhas, canções de pássaros de que já falei (esquecia-me da felosa, de penas verdes) e uma borboleta da urtiga, magnífica, que batia as asas devagarinho em cima de um joelho de Antalcidor. E havia também o besouro, infelizmente!
Chegou numa réstia de sol, foi de encontro ao tronco do bordo, fez «bzzim!», saltou, foi de encontro à testa do geniozinho, fez «bzzum!», saltou outra vez, andou à roda da borboleta da urtiga, rodopiou, zumbiu, fez voar a borboleta, bateu de encontro a tudo, com as asas a vibrar tanto tempo e com tanta força que não havia mais nada a fazer senão tapar os ouvidos, enquanto aquele zumbido besourante, buzinante, rodopiante, enchia o palácio com as suas voltas e reviravoltas, os seus tombos e a sua desenfreada loucura.
— Vai-te embora, besouro! — disse Antalcidor severamente.
— Que foi que eu fiz? — choramingou o besouro, sempre a girar. — Eu vinha da chapa do sol, a sombra cegou-me... Por isso é que bati com a cabeça. Magoei-me mais do que julgas: as paredes do teu palácio são duras.
— E a tua cabeça também — disse o geniozinho. — Nem se imagina! Fiquei com um galo na testa... Vai-te embora, besouro!
E curvou-se para agarrar na sua erva de S. Tiago, uma grande tasneirinha de flores douradas como estrelas, que lhe servia de varinha mágica.
— Uma vez... Duas vezes... Vou dizer três...
E, de repente, fez-se silêncio: nem barulho, nem besouro. À ordem do geniozinho cor-de-rosa, o raio de Sol levou-o tão depressa como o trouxera. Muito descontente, furioso, ressentido. Mas o simpático Antalcidor nem dá por isso. Está nesse momento a ouvir trinar a cotovia. A borboleta voltou a poisar-lhe no joelho. E o dia bonito recupera a calma sob o olhar do rei geniozinho.
A alegria brilha de novo nos seus olhos, uma grande alegria feita de amizade por tudo o que o rodeia: o ar puro, as árvores, os tufos de erva, os animais inocentes, os que ele vê e os que não vê mas sabe estarem ali, cada qual no seu lugar naquele pequeno reino florestal — os animais nocturnos que esperam por Galaor, adormecidos na toca, num buraco de árvore; os grandes que nunca se aproximam, por amabilidade, para não assustarem um geniozinho tão simpático, tão pequenininho. Mas também esses — o cabrito-montês, o veado velho, o javali — se sentem satisfeitos com o seu reizinho, com a boa ordem que reina no mundo, com uma harmonia que nem sequer é perturbada pelo voo tonto de um besourão.
Deste modo, Antalcidor continua o lindo sonho acordado que se repete todas as manhãs. Sente-se digno da confiança que nele e em Galaor deposita o Grande Rei dos geniozinhos.
Diz de si para consigo: «Não sei o que se passa durante a noite. Mas de dia, mesmo assim, vai indo tudo bem. Ah! Não tenho nisso grande merecimento: basta uma chamadazinha à ordem, lá de vez em quando. Nem sequer é preciso empunhar a minha erva de S. Tiago. O meu povo é bem-educado, obediente...»
— Hihi! — canta uma voz estridente. — Hihi!
— Que foi isto? — murmura o reizinho. — Quem está a fazer troça? Quem tem semelhante atrevimento? Estarei a sonhar alto?... Ah, bom, é simplesmente o pica-pau que muda de árvore. O principal é que continue a bater... Bate, bate, pica-pau!
Imediatamente o bico do pica-pau recomeça a bater noutro carvalho. Um leirão, sem ruído, parece cair de uma faia, passa mesmo junto aos pés de Antalcidor, segurando na boca um fruto. «Picapau no carvalho — diz consigo o geniozinho — leirão na faia, está tudo certo.»
E põe-se a cantarolar, por brincadeira, a lengalenga para uso dos reis-geniozinhos:

Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho
Rata no trigo
Vaca no pascigo
Carraça no cão
Pulga no colchão
Pega no ninho
Toupeira no buraquinho
Burro no palheiro
Galinha no poleiro
Corça na floresta
Lebre na giesta
Cabra no rebanho
Lontra no banho
Castanha no ouriço
Abelha no cortiço


E assim, durante muito tempo, sem um esquecimento, sem um engano, sem errar uma sílaba sequer e também sem tomar fôlego (de contrário, perde-se)

...Porco na lavadura
Cotovia na altura!


termina finalmente Antalcidor. «Uff!...» E respira fundo, satisfeito por ter ganho e por poder dizer que mais uma vez ficará descansado durante todo o dia, mais um lindo dia sem complicações.
Isso é o que ele julga, o ingénuo do Antalcidor! Esqueceu-se completamente do besouro, do besourão, tão cheio de melindres e ressentimentos, que foi enxotado e humilhado, e que naquele mesmo instante...
Que andará ele a fazer, esse tal besouro às riscas? Julgar-se-ia que voa inocentemente de flor em flor e que também já se esqueceu de tudo.
Mas então porque se esconderá ele, ao passar do sol para a sombra, com a sua gorda barriga dourada às riscas pretas? Por que motivo voará na ponta das asas, de mansinho, de mansinho, desejoso pela primeira vez de passar despercebido, ele que adora ouvir o seu próprio zumbido de besouro zumbidor?
Vai e vem, seguindo sempre o mesmo percurso diante da porta do palácio, sempre da mesma flor para a mesma flor. Há muitas em Coração-de-Estrela, as mais lindas de todo o bosque.
Mas aquelas duas são as mais bonitas de todas: uma erva-pombinha azul-pálida, cor do céu quando a tarde lhe apaga a cor, e uma campainha, também azul, mas luminosa como a manhã. (Na língua dos geniozinhos, a primeira chama-se Colombina e a segunda Bellflower, o que quer dizer, segundo parece, Sinoflor).
Deste modo, voa o besouro e torna a voar, de Colombina para Sinoflor e de Sinoflor para Colombina, sem descanso, sem barulho, enquanto Antalcidor sorri e não dá por coisa alguma.
O dia vai morrendo, resvalando devagarinho para a noite. E a hora a que o geniozinho do dia, como de costume, principia a olhar para as bandas do Atalho Maior, lá no extremo do túnel frondoso, onde daí a pouco, vestido de veludo negro, igualmente encantador, com três palmos de altura igualmente, vai aparecer o geniozinho da noite.
Ali vem ele, o pontual Galaor, recortando a delicada silhueta no horizonte que escurece. Por cima do seu ombro já brilha a Estrela Vésper. Antalcidor vê-o chegar e o seu coração afectuoso enternece-se:
— Que bom amigo! Que simpático rei! Como será que ele se governa, às escuras, no meio de todos aqueles bichos inquietantes?... Ah, lá vem o noitibó. Nem sequer se ouve voar. Não gosto disto... Despacha-te, Galaor!
Finalmente, ouve sob os ramos a voz clara do outro geniozinho. É a canção do render da guarda da noite, evidentemente:

A pé! A pé! Escondeu-se o Sol.
Estrelas de prata vão brilhar.
Acordai vós, povo nocturno,
Chegou agora o nosso turno!
Antalcidor pode ir sonhar.


Antalcidor boceja e sorri.
— Tudo em ordem? — pergunta o recém-chegado.
— Tudo em ordem.
— Até amanhã?
— Até amanhã — responde Antalcidor. — Ao primeiro trinado da cotovia.
E acrescenta, espreguiçando-se:
— Tenho tanto sono! Nem vale a pena esta noite beber a água de Sinoflor.
— Oh, desgraçado! Não deixes de fazer semelhante coisa! — protesta Galaor com um ligeiro arrepio.
— Descansa! — sossega-o o amigo. — Como havemos de fazer respeitar as leis, se nós próprios as não cumprimos?
E, transpondo o limiar musgoso, inclina-se para Sinoflor, bebe a água fresca do relento no fundo da corola e afasta-se pelo Atalho Maior para alcançar o palácio secreto.
Nem ele nem Galaor ouviram crepitar um pequeno rumor de asas junto do pé da Campainha. Era o besouro escondido na relva que vira o geniozinho do dia a beber e que não pudera conter a sua satisfação.
Porquê? Esperem pelo resto da história.
Portanto, aí temos Galaor instalado, empoleirado em cima do seu trono-cogumelo. Aí o temos a bater as palmas e a dar as suas ordens para essa noite:
— Morcego, esvoaça e entrelaça!... Mostra os teus grandes olhos, coruja!... Família ouriço, cá para fora! Saiam todos debaixo do silvado!... Tu, sapo do luar, faz tilintar a tua bigorna!...
E tudo se faz como ele manda: a coruja acende os olhos dourados; o morcego e o noitibó entrelaçam os seus voos caprichosos; os ouriços em correnteza, o papá adiante, a mamã atrás, os meninos ouriços por ordem de tamanho, revolvem com o focinho as folhas secas; e o sapo da fonte, invisível na neblina leve, faz tilintar a sua bigorna de cristal.
«Perfeito, perfeito! — pensa Galaor. — Não sei o que se passa durante o dia e como será que Antalcidor se governa com todos aqueles bichos turbulentos. Mas, ainda assim, durante a noite, vai indo tudo bem. O meu povo é dócil e sossegado. Que belas horas passadas na escuridão dos bosques, profunda e suave, mais aveludada que o veludo do meu gibão!»
Pelo intervalo dos ramos olha as estrelas girando. A seus pés, um pirilampo brilha na relva como uma esmeralda; depois outro, depois uma centena deles, em correnteza.
Movendo as mãos no escuro, Galaor desenha em redor longas curvas cadenciadas: a fila dos pirilampos alinha ao gesto das suas mãos, e continua a brilhar a toda a largura do palácio como uma grinalda de fogo de artifício. Um grilo estridula baixinho. A pequena bigorna do sapo parece bater ao ritmo da sua límpida canção.
E Galaor baloiça-se no trono, cantarolando a meia-voz o estribilho-lengalenga dos geniozinhos, exactamente o mesmo que Antalcidor cantava, tão depressa como o geniozinho do dia, tal como ele, sem hesitar e também sem tomar fôlego:

Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho


e por aí fora, até ... Cotovia na altura!

— Uff! — suspira por fim. — Ganhei. Esperemos sossegadamente pela cotovia.
Falou apenas para si. Mas alguém o ouviu. Quem? Ora... o malvado besouro, escondido agora debaixo de Colombina. Está radiante, esfrega as patorras e pensa, recozendo o seu ressentimento: «Sim, meu amigo, esperemos pela cotovia! Quando ela cantar, é que eu me vou rir!»
A um e um apagam-se os pirilampos. A uma e uma apagam-se as estrelas. O grilo e o sapo calam-se. Ao fim do Atalho Maior o céu torna-se cor-de-rosa. Galaor, um pouco entorpecido, pensa já no rico soninho que irá fazer, durante o dia inteiro, no palácio secreto!
— Nem me valia a pena também beber a água da minha flor — diz de si para si. — Mas, Deus me livre! A lei é lei:

Água de Sinoflor para Antalcidor:
Vai ele dormir quando a coruja pia
Colombina guarda para Galaor
A água que dá o sono de dia.


E afinal — acrescenta sorrindo — a flor mais bonita e a água mais deliciosa são as minhas:

Podes tocar e tilintar
Até cansar, ó Campainha.
A minha flor é só aquela,
A que entre as mais é a mais bela
Das flores azuis: a Erva-Pombinha.


Levanta-se, dirige-se lentamente para Colombina, inclina-se sobre a sua corola funda e bebe a grandes sorvos o orvalho da madrugada.
Que fresquinho! E, no entanto, parece-lhe mais perfumado, mais estonteante que nas outras manhãs. Mais um golinho, mais outro... Que aconteceu a Antalcidor? Já cá devia estar. O dia cresce. É a cotovia a cantar?... É ela, é. O seu trinado aproxima-se, ecoa nos limites do bosque, mesmo no extremo do Atalho Maior. Mas é inutilmente que Galaor fita o buraquinho de luz que brilha lá ao fundo, sob o túnel dos ramos: ninguém. Nem sombra de geniozinho.
A claridade agora alastra por todo o lado; largos pingos de luz inundam Coração-de-Estrela. O pombo azul arrulha no bordo. Uma labareda ruiva atravessa o ar numa pirueta, desenrolando uma cauda comprida e felpuda. E Galaor estremece, ele que nunca viu um esquilo, diante daquele bicho peludo que voa tão leve como um pássaro.
— Antalcidor! Antalcidor! — chama ele.
Em seu redor tudo se agita, estremece, resfolga, pia e chilreia. Grandes aranhas pançudas baloiçam-se na ponta do fio. Zumbem abelhas, tirando o pólen de flor em flor.
— Antalcidor! — continua a chamar o pobre abandonado.
Mas inutilmente. Nem rasto de Antalcidor. E de minuto a minuto a desordem aumenta. Gaios pairam, pegas brigam furiosamente na ramaria do próprio bordo. Que horríveis gritos! A luz do Sol tremelica, cada vez mais deslumbrante. E Galaor, perdendo a cabeça, geme: — Já não vejo nada! Tenho os ouvidos estoirados!... Ai, ai! Que irá acontecer?
Que é feito do bom silêncio nocturno, tão puro, em que guisalhava o cantar do grilo, em que tilintava em pancadas límpidas a pequena bigorna do sapo? Que é feito da obscuridade sedosa e fresca, semitransparente, que reinava em Coração-de-Estrela? Tudo é cru, brutal e agressivo. O pobre geniozinho tapa inutilmente os olhos com as mãos; vê grandes círculos a girar: vermelhos, verdes, roxos, novamente vermelhos. Pela última vez, com a voz a tremer, quase a chorar, chama:
— Antalcidor! Geniozinho do dia! Meu bom amigo, meu irmão, acode-me!...
Mas ninguém lhe responde, a não ser a gritaria das pegas e as gargalhadas trocistas dos gaios.
— Dormir! Dormir! — suspira Galaor. — Há uma hora pelo menos que eu devia estar a dormir...
Ao pensar nisso, o seu desânimo e o seu medo aumentam. Não é só o amigo que o abandona, mas, pela primeira vez na sua vida, está acordado em pleno dia; e não só acordado, mas sem sono; sem sono absolutamente nenhum.
Deixa o trono, desta vez dando um salto, e corre para a erva-pombinha:
— Ó Colombina, também tu serás capaz de me atraiçoar? Eu quero dormir...
Inclinado sobre a corola azul-pálida, mergulha nela o rosto afogueado. Mal restam, lá muito no fundo, umas raras gotas de orvalho.
Bebe-as sofregamente, de olhos fechados, à espera de sentir aquela comichão nas pálpebras a que os meninos chamam o João-Pestana. Mas, pelo contrário, os olhos abrem-se-lhe ainda mais, o sangue corre-lhe mais depressa nas veias. Porquê? Porquê? É tão profundo o seu espanto que repete em voz alta:
— Porquê?
— Eu cá sssei! Sssei assim!...
— Quem está a falar?
— Sssim, a sssério! De vvverdade, de vvverdade!
«Aquilo» rodopia-lhe em torno da cabeça, pela direita, pela esquerda, às reviravoltas, aos tombos. Olha, e não vê nada. Agita a mão no ar. Mas que bicho diurno será aquele que está ao mesmo tempo em todo o lado e em todo o lado é invisível?
— Quem és tu? Fala, bicho voador.
— Sou o besouro, sou o besouro! — zumbe a voz redemoinhante. — Dormir? Ah! Ah! Zzta! Nesta fffloresta nem sssono nem sssesta! Nenhum nenhum nenhum nenhum...
— Mas porquê? — suplica o pobre geniozinho. — Se sabes, diz.
— Porrrque sssim — ronca o besouro.
E, com uma batidela de asas, desaparece em pleno sol que ilumina a clareira.
Por toda a parte, em volta de Galaor, reinam a algazarra e a confusão. Àqueles pios, àqueles guinchos, àqueles apitos, àquela desafinação horrorosa é que o geniozinho do dia chama canto dos passarinhos? Não há uma voz que afine com outra; estridulam, fazem surriada, assobiam, interrompem-se umas às outras para suplício de um geniozinho que tem os ouvidos delicados e que tanto desejava dormir!
Ei-lo novamente em cima do trono-cogumelo, no sítio mais macio do belo acolchoado castanho. Embala-se a si próprio, cantarolando baixinho para acalmar: «Fecha os teus olhos, o dia é de oiro...» Essa agora! Não há meio. O dia é de fogo, não é de oiro! Toda a vegetação flameja através das cortinas transparentes que as aranhas teceram.
— Mandrionas! — grita-lhes Galaor. — Façam-me sombra, suas grandes barrigudas! Quero uns cortinados bem espessos!
Mas as aranhas reboludas, suspensas do centro da teia, com as suas oito patas muito afastadas, dormem regaladas ao sol.
De cada vez que Galaor grita, dão apenas um leve estremeçãozito, como nós damos às vezes a sonhar, e ficam outra vez imóveis. Sabem lá porventura quem é Galaor? E Galaor sabe-lhes porventura o nome?
Os seus gritos não têm nada a ver com elas.
O desgraçado Galaor está sozinho, de olhos abertos ao meio-dia, apesar do orvalho que bebeu da corola de Colombina, essa água que faz adormecer durante o dia, a água maravilhosa do geniozinho da noite.
Chora, desesperado. A pluma de avestruz do gorro pende-lhe, caída em frente do nariz. Endireita-a com uma sacudidela da cabeça, subitamente furioso. De pé, entre as raízes do bordo, muito teso, muito encarnado, ele, habitualmente tão pálido, barafusta para todos os lados ao mesmo tempo:
— Insuportáveis bichos! Silêncio! Estou farto de tudo isto! Como te chamas tu, ó lá de cima, o do focinho aguçado, orelhas em bico e rabo vermelho? Tu, sim, tu que tens quatro patas e voas como os pássaros. E tu, ó pássaro cor da noite, donde foi que saíste? Preto como és, devias pertencer ao meu povo, e não te conheço. Ah! Mas o bico atraiçoa-te, esse teu bico cor de sol.
Assim interpelado, o melro solta um longo assobio trocista:
— Rrridículo! Co’a breca! Rrridículo!
E do cocuruto do bordo, o esquilo Rabo Vermelho precipita-se de escantilhão, de ramo em ramo, dá voltas e reviravoltas em redor do tronco, ora pela direita ora pela esquerda, mostrando de cada vez o focinho, e com a patinha faz a Galaor a gaifona mais atrevida deste mundo:
— Não vales nada! Nada! Três vezes nada!
Um bando de chapins com as penas azuis e amarelas todas despenteadas rodeia-o numa sarabanda de asas que lhe tira o fôlego e a voz.
— Quem governa! Quem governa aqui?
— Tu, não! Tu, não! — resmunga outra vez o esquilo.
Galaor, recuando entre as raízes do bordo, cai em cima do trono-cogumelo. De propósito, vira as costas à clareira. Aos poucos e poucos o coração sossega-lhe. Procura recuperar a serenidade.
— Vamos lá pensar — diz ele, para ganhar coragem. — Vamos a recuperar o sangue-frio. Já que Antalcidor desertou, já que o mundo está de pernas para o ar, sou eu, Galaor, quem tem de reinar, seja dia ou seja noite. Preciso de restabelecer a ordem e a disciplina e entregar ao meu colega, quando ele finalmente se dignar aparecer, um bosquezinho digno de nós ambos, um reino encantador e feliz. Vamos lá a isto.
Lembra-se de que todas as manhãs, quando Antalcidor chegava pelo Atalho Maior, vinha sempre a bater as palmas, disparando alegremente as suas ordens. Quais serão as ordens do geniozinho do dia? Era preciso descobrir as mesmas palavras e dizê-las da mesma maneira decidida e alegre. Galaor agarra a cabeça com as mãos, faz um esforço enorme para se lembrar ao menos de algumas das palavras mágicas.
— Ai, é muito difícil! Todos os dias ao amanhecer o sono me vencia, sem eu querer; era no meio dessa espécie de nevoeiro que eu ouvia Antalcidor. Mais um bocadinho: está quase... Coragem, aí estão elas! Está quase... está quase... Portem-se como deve ser, seus desobedientes!
Galaor ergue a cabeça de repente, bate as palmas. A sua voz ecoa através de Coração-de-Estrela, voa ao longo dos atalhos, dos carreiros, pelo bosque inteiro...
— Salta, cabrito, do pinheiro para o bordo! Apoia-te no vento que passa! E tu, cotovia, onde tens o gorro encarnado e verde? E tu, ó melro azul, porque esperas? Esvoaça e entrelaça! Não, não é nada disto... Pica, pica!... Também não é assim! Estou bem arranjado!
Depois de uns momentos de surpresa, as gargalhadas e a surriada desencadeiam-se.
Um grande cabrito montês, de ventas abertas, pula nas quatro patas como se voasse sobre Coração-de-Estrela, encolhe-se e rebola pelo musgo, levanta-se e desaparece aos pinotes, assoprando.
— Está maluco! Completamente maluco!
— Huhuuh! — assobia o vento que passa. — Como é que eu podia levantar ao ar um cabrito montês?... Está maluco!
— Bebeu demais? Bebeu demais? — trina a cotovia. — O meu gorro encarnado?... A minha poupa! A minha poupa!
— Silêncio! — explode Galaor. — Voltem todos pára casa. Todos, ouvem bem? Fiquem lá escondidos até à noite!
A voz engasga-se-lhe. As palmas das mãos ardem-lhe de as bater com tanta força.
Mas cada vez sente maior medo diante da agitação terrível que causou sem querer.
De todos os lados surgem bichos que voam, que saltam, que rebolam, enrolando e desenrolando, através de Coração-de-Estrela, uma farândola fantástica. Coelhos, faisões, lebres da floresta, grandes moscardos tigrados de olhos avermelhados, doninhas ondulantes e amarelas, ágeis lagartos couraçados de esmeralda, saem de cada atalho, de cada pedra, dos troncos das árvores e da espessura da folhagem. E Galaor torce agora as mãos. E suplica com a voz a tremer:
— Deixem-me, eu não lhes fiz nada! Sou apenas um geniozinho, um bom geniozinho da noite... Ui! Brr! Misericórdia, excelentíssimo senhor! Piedade!
É que um enorme javali, de pêlo eriçado, labaredas a bailar nos olhos roxos, os dentes brancos em riste, atravessados na tromba preta, fita-o, mete a cabeça por entre as raízes do bordo... Felizmente a cabeça é grande demais para passar. O javali assopra ruidosamente, torce e retorce o rabo; por fim, grunhindo e aos saltos, retira-se a trote ligeiro.
Galaor está quase desmaiado. Meio inconsciente, balbucia como último recurso as palavras da lengalenga mágica. Mas engana-se outra vez, coitado, mistura tudo, baralha e emaranha tudo:

Burro no ninho
Corça no buraquinho
Picapau no colchão
Ai que confusão!
Lebre no poleiro.
Não é nada disso!
Vaca no cortiço.
Não é bem assim!
Quem se ri de mim?

Riem os bichos todos; e ri o vento na folhagem, riem as moscas nas réstias de sol, as aranhas no meio da teia, o bosque inteiro desde a terra até ao céu.
Mas quem ri com mais gosto, quem continua através da clareira nos seus rodopios, nos seus tombos, com os seus bzzzs, os seus tzzzs? Quem, senão o besouro, o besouro isca-riscado?
Daí por diante, Galaor cala-se. Desiste. Só tem um pensamento, um único desejo: chegar finalmente ao entardecer daquele dia medonho, esquecer aquela desordem escandalosa, aquela sarabanda descarada, que o faz morrer de vergonha.
Adormeceu finalmente? Passou apenas pelo sono? Estremece, repara que o sol ofuscante filtra agora por debaixo dos ramos uma luz oblíqua e dourada. A algazarra acalmou um pouco. Até que enfim! Até que enfim que lhe chega deliciosamente aos ouvidos uma canção vinda do Atalho Maior:

De pé! De pé! Já é manhã!
O meu reinado principia...


Não é verdade. Não é manhã. É noite. Mas, graças a Deus, mesmo que Antalcidor divague, é a sua voz que realmente soa, que se aproxima. E é realmente ele que aparece ao cair da noite, no fim da clareira, vestido de cetim cor-de-rosa e seda branca, pimpante, elegante, de espadinha de prata ao lado.
Galaor boceja, procura sorrir, murmurar o cumprimento do costume e, de repente, cai como um chumbo no fundo de um sono sem margens.
Antalcidor vê o corpo de Galaor dobrar-se, oscilar à beirinha do trono e escorregar inerte para cima do musgo. Alarma-se, corre, chama:
— Galaor! Galaor!
Mas é em vão. Curvado agora sobre o amigo, sacode-o, suplica-lhe desvairadamente:
— Responde-me! Acorda! Não vês que a noite vem a chegar?... Que hei-de eu fazer, que será de mim sem ti?
Para ele também o mundo está do avesso. Continua a falar, a explicar:
— Perdoa-me; a culpa não foi minha. Não acordei; estive a dormir
no palácio secreto até ao entardecer. Como se... Como se tivesse bebido na corola de Sinoflor a tua água que faz dormir de dia. Deitei a correr! A correr! E agora que vai a escurecer, és tu quem dorme, dorme, dorme, como se... Estás a ouvir-me, Galaor? Como se tivesses bebido na corola de Colombina a minha água que faz dormir de noite.
Galaor não responde: dorme. A sombra adensa-se. Os olhos enormes da coruja acendem-se à entrada do palácio. O morcego passa e torna a passar, batendo com o vento frio das asas na cara de Antalcidor.
Os finos cabelos loiros deste eriçam-se, a voz gela-lhe nos lábios. Ah! Que é aquilo? Diante dele, a poucos passos, as folhas do silvado chiam. Quem vem lá? Quem passa assim nas trevas em fila indiana interminável? Qualquer coisa raspa-lhe a perna. Estende a mão, mas retira-a logo soltando um grito: «aquilo» picava como um milhar de picos cerrados!
Ao ouvir o grito, outra criatura salta e vem cair-lhe pesada¬mente sobre um pé como um embrulho de trapos molhados. Antalcidor toca-lhe sem querer e solta novo grito de pavor: era gelado, um bocado peganhento, todo aos altos como se estivesse cheio de borbulhas...
Quem diria ao infeliz Antalcidor que toda a família ouriço e o sapo da fonte tinham tido ainda mais medo que ele?
Está muito escuro. A custo, aqui e acolá, brilham nas trevas luzinhas verdes. Espalham-se, e em breve se apagam. Galaor, estendido no musgo, continua a dormir um sono profundo. Como é que os pirilampos sozinhos haviam de ser capazes de pendurar nas paredes do palácio a sua grinalda de fogo de artifício?
O grilinho cala-se, assim como o sapo da fonte. Mas a noite inteira enche-se de sussurros, de murmúrios, de gritos estranhos, de uivos, que põem o coração aos saltos. O mocho solta um grito escarninho, o alcaravão berra, o lince ulula, a coruja pia, o veado velho brama no vale com tal força que todo o bosque reboa. E, de repente, atravessando o céu, o bufo solta um queixume longo, longo, tão lúgubre que Antalcidor tapa os ouvidos com ambas as mãos, julgando chegada a sua última hora. «É com certeza o lobo» — diz consigo. — «E o lobo! Vai comer-me...!»
Esquece-se da sua erva de S. Tiago caída ao lado do trono. De resto, mesmo que tivesse pensado nela, seria capaz de a encon¬trar no meio da escuridão? Treme. Finalmente o horrível lamento calou-se. Mas logo no semi-silêncio ressoa uma voz por detrás dele semelhante ao sussurro de duas asas que se esfregam uma na outra:
— A lengalenga! A lengalenga! Zzzz ... Zzzz! A lengalenga!
«É verdade! — pensa Antalcidor. — Onde diacho tinha eu a cabeça? Estou salvo!»
E vá de respirar fundo para ir até ao fim sem tomar fôlego nem uma vez só:

Cotovia no bugalho
Pulga no carvalho
Corça no cortiço
Toupeira no ouriço
Ai que grande asneira!
Lontra na toupeira.
Não é assim! Não.
É vaca no cão...

Pára, com as lágrimas nos olhos. Que foi que lhe deu? Que embrulhada é aquela?
— Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!... Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!... A voz trocista persegue-o.
Dir-se-ia agora que pequenos pratos metálicos se chocam, marcando o ritmo de uma canção triunfal:
— Bzzz zenga, a lengalenga! Bzzz zenga, a lengalenga!...
E realmente é como se um génio malfazejo se alegrasse com o alarido, a desordem e a detestável anarquia que sacodem o bosque nessa noite.
— Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz! Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz!...
— Basta! — geme Antalcidor. — Quem és tu, génio mau?
— Ainda o perguntas? Sou o besouro! O besouro que tu enxotaste! O besouro que se vingou! O besouro isca-riscada. A lengalenga, bzz! A lengalenga, bzz! Isto há-de durar a noite toda!
Ai, é bem verdade. O que Galaor sofreu durante o dia não é nada em comparação com o que espera o desventurado Antalcidor nessa noite.
Como fizera o outro geniozinho, também ele tenta primeiro lutar; bate as palmas, esganiça-se a gritar ordens. Mas a língua embaraça-se-lhe sempre, aumentando a balbúrdia e o horror. Que noite! Tudo fervilha, grunhe, trepa, tudo se retorce, se enrosca, se desenrola, rasteja, ronda, escorrega, estala, em redor de Antalcidor; tudo lhe toca, baila, avança, recua, tudo lhe dá encontrões, e sempre na escuridão cada vez mais escura, sem que lhe seja possível distinguir um vulto, uma silhueta, nada senão aquele fervilhar medonho, aqueles assopros, aqueles suspiros assustadores.
Mas o pior é o zumbido do besouro, o zunido das suas asas e as marteladas dos seus pratos.
Aquele besouro é impiedoso; tão satisfeito que perde a cabeça, quando, no fim de contas, tudo aquilo também pode acabar mal para ele.
Esperemos isso, que bem o merece.
Quando por fim a manhã se avizinha, Antalcidor e ele estão tão cansados um como o outro. O geniozinho, compreende-se: treme de medo e de frio. O besouro, por ter vibrado tanto, voado tanto, saltado e pulado tanto, e aplaudido tanto o seu estratagema maldoso. Passar uma noite inteira a dizer: «Ah! que espertalhão que eu sou! Sou o mais espertalhão dos besouros!», é realmente demais... Ai, sim, sim, não há dúvida de que a história há-de acabar mal para ele.
Assim que o primeiro alvor da madrugada se escoa pelo Atalho Maior, e alcança a entrada do palácio, acaricia em primeiro lugar a carinha de Galaor, adormecido em cima do musgo; o geniozinho da noite sorri e as pálpebras estremecem-lhe ligeiramente.
A luz sobe, transformada em raio de sol, ilumina o besouro com as riscas despenteadas, cambaleante e a ir de encontro a tudo. Quer sair; atira-se contra as raízes grossas. E...
E a sua filarmónica, de repente, muda de tom. Deixou de ser triunfal. Vibra num longo grito de angústia, numa nota só, aguda, desvairada. Galaor acorda logo, senta-se, sorri ao seu amigo, cantarolando maquinalmente a canção do render da guarda:

A pé! A pé! Escondeu-se o Sol...

— Ah, não! — exclama Antalcidor. — É dia! É dia! É dia!
Salta do trono abaixo, estende ambas as mãos a Galaor e ajuda-o a levantar-se. Entretanto, o bater de asas do besouro torna-se cada vez mais aflitivo. Parecia uma corneta a vibrar na nota mais alta, tão fina como se fosse quebrar.
— Onde estás, besouro? Onde estás tu? — perguntam os geniozinhos em coro.
— Aquiii... aqui... — chora o besouro.
A voz vem lá de cima, do alto da porta. Os nossos amigos levantam os olhos, não vêem nada. No entanto, é agora dia claro: aquela enorme bola ruiva e preta havia de lhes saltar à vista.
— Aqui, onde?
— Nas teias de aranha. Fiquei preso!
Lá mesmo em cima, no canto da porta, os geniozinhos avistam por fim qualquer coisa a mexer, a debater-se desesperadamente. E o besouro atrapalhado nos fios, com as patas atadas, as asas paralisadas.
— Libertem-me! — suplica o besouro. — Confesso tudo! Fui eu! Aconteceu tudo aquilo por minha culpa! Desatem-me que eu conto tudo.
— Conta primeiro — dizem os geniozinhos. — Realmente foste apanhado na ratoeira.
Em vez dos festões delicados, transparentes, onde só podiam prender-se as gotas leves do orvalho e as cores do arco-íris, as aranhas tinham fiado cordas suficientemente fortes para amarrar o maior e o mais estúpido dos besouros isca-riscados, e aí estava a prova.
Quando todos perderam a cabeça, quando o dia e a noite se confundem, quando os que devem dormir estão acordados e os que devem estar acordados dormem, é assim que as coisas acontecem, mesmo no bosquezinho mais sossegado e mais feliz da Terra.
— Conta! Conta! — repetem os geniozinhos.
E o besouro, pendurado lá em cima, baloiçando como um badalo de campainha, lamentoso e arrependido, conta:
— Chupei a água de Colombina e deitei-a em Sinoflor com a minha tromba.
— E depois? E depois? — perguntam os geniozinhos, quase sem respiração.
— E depois, naturalmente, suguei a água de Sinobina e deitei-a em Colonflor com a minha chupa.
— Não te enganes, chupador do diabo! — gritam ao mesmo tempo Antalcidor e Galaor. —Não te chega, se calhar?... Trocaste a água das nossas flores, confessa-o, e pronto.
— Sim, infelizmente — diz o besouro.
— Ah! Ah! — troça Antalcidor. — E eu bebi em Sinoflor a água que faz dormir de dia. Por isso não acordei quando chegou a madrugada.
— Ah! Ah! — explode Galaor. — E eu bebi em Colombina a água que faz dormir de noite. Por isso adormeci num sono de chumbo exactamente à hora em que devia reinar.
— Pois, besouro — dizem ambos em coro — parabéns, fizeste um lindo trabalho!... E se nós agora te deixássemos aí em cima?
— Não! Não! — suplica o besouro. — Eu nunca mais torno! Piedade, misericórdia, meus fidalguinhos, meus geniozinhos encantadores e generosos! Pensem que neste momento já tudo entrou na ordem. No coração de Colombina já caíram as lágrimas do orvalho da madrugada. Ele aí está à tua espera, Galaor, pronto para ti! Bebe-o daqui em diante sem desconfiança; e dirige-te ao palácio secreto onde dormirás todo o dia enquanto reinar Antalcidor. E tudo voltará a ser como dantes, quando vivíamos felizes.
— Está bem — sorriem os dois geniozinhos. — Nós perdoamos-te, besouro.
Galaor, de pé sobre o trono-cogumelo, deixa que o amigo lhe trepe para os ombros. Este, com a sua espadinha de prata, solta uma asa do besouro, e pára...
— Estás arrependido? Verdadeiramente arrependido? Juras?
— Juro! — diz o besouro.
Mais dois ou três leves golpes: as patas mexem, as asas palpitam.
— Voa em direcção a nós — ordena Antalcidor. — Vem poisar exactamente diante do trono, na claridade da porta.
O besouro obedece, desce em voo planado, poisando suavemente sobre o musgo.
— Sentemo-nos ao lado um do outro no trono real — continua Antalcidor. — Bem. E agora, meus amigos, a lengalenga! Ambos ao mesmo tempo, Galaor e eu. Tenho a certeza de que vai correr bem. E tu, besouro, os pratos, a corneta, toda a tua orquestra de besouro. Bem a compasso e com toda a força! Que todos os bichos do bosque, os diurnos e os nocturnos, oiçam de um extremo ao outro de carreiros e atalhos. Estamos prontos?
— Estamos! — responde Galaor.
— Estamos! — responde o besouro riscado.
— Então, assim que eu mandar...
Antalcidor apanha do musgo a erva de S. Tiago de flores douradas, levanta-a, baixa-a para dar o sinal. E os dois geniozinhos, a plenos pulmões, de um só fôlego e sem se enganarem uma única vez, entoam e cantam a lengalenga do bosque.
E o besouro, com a sua corneta, os seus pratos, o seu grande tambor zumbidor, acompanha a cantiga dos geniozinhos.
E todos os bichos do bosque correm agora obedientes e pontuais. O esquilo salta do pinheiro para o bordo, de patas esticadas, cauda bem desfraldada; a cotovia tagarela põe-se a tagarelar; o pombo azul arrulha; o picapau bate com o bico no tronco do carvalho e o melro assobia o seu trinado, todos a compasso, enquanto os bichos nocturnos — o noitibó, o morcego, a coruja, a família ouriço e o sapo do luar — se deixam ficar sossegadamente na segunda fila, sabendo que ainda não chegou a sua altura, mas que cada qual terá a sua vez, enquanto os bichos grandes do bosque — o cabrito montês de chifres afiados, esticando o pescoço gracioso e flexível; o veado velho, alçando o focinho por cima das palmas dos fetos; o javali, espreitando na orla do arvoredo — retêm a respiração e ficam imóveis a escutar os dois amigos
:
Leirão na faia
Búzio na praia
Picapau no carvalho
Mosca no bugalho
Rata no trigo
Vaca no pascigo
Carraça no cão
Pulga no colchão
Pega no ninho
Toupeira no buraquinho
Burro no palheiro
Galinha no poleiro
Corça na floresta
Lebre na giesta
Cabra no rebanho
Lontra no banho
Castanha no ouriço
Abelha no cortiço...


E assim até ao fim, sem um esquecimento, sem tomarem fôlego, até (lembram-se?)

...Porco na lavadura
Cotovia na altura!


Às alturas, como a cotovia, sobem as vozes frescas dos geniozinhos. Sinoflor e Colombina erguem-se muito tesinhas no seu pé, mais azulinhas que nunca.
— Agora nós! — exclama o besouro.
E os bichos todos, mais as duas flores — a campainha e a erva-pombinha — vá de cantarem em coro com toda a alma, como um voto de felicidade feito para sempre:

Já se viu à luz do Sol
Ou ao luar prateado
Dois reizinhos como estes
Que nos têm governado?
Vivam com muita alegria
Um de noite, outro de dia!




Maurice Genevoix
O bosque mágico
Verbo, Lisboa, s/d
adaptado


Humberto e a macieira - Bruno Hächler

Nos arredores de uma pequena cidade viveu em tempos um homem. Chamava-se Humberto.
Humberto era um homem simpático, de olhos bondosos e uns óculos muito pequeninos pousados no nariz.
Os seus caracóis castanhos pareciam a lã de uma ovelha. Morava numa casa velha e torta que se escondia tímida, quase envergonhada, por detrás de um belo jardim. No jardim, num prado verde e florido, havia uma macieira.
Todas as manhãs, quando se levantava, Humberto maravilhava-se com a beleza da sua árvore. Ao fim da tarde, quando regressava do trabalho, sentava-se durante horas a ver os pássaros na copa da macieira.
Na verdade, devemos dizer que não é nada aborrecido estar a observar uma árvore. Algumas são verdadeiras artistas da mudança.
Na Primavera, vestem-se de mantos floridos e estendem os ramos para o calor, enquanto as abelhas laboriosas as procuram em busca de alimento.
No Verão, oferecem a sua sombra, enquanto o sol brilha com tanta intensidade que faz as pessoas andarem de rostos afogueados.
No Outono, o vento forte brinca sem descanso com as folhas amarelas, vermelhas e castanhas e espalha-as pelos prados e ruas, até que o Inverno veste a paisagem de um manto branco.
Quando Humberto se deitava debaixo da macieira, lembrava-se de como costumava trepar por ela acima em criança. Muitas vezes se escondera nos seus ramos, quando a mãe o chamava para almoçar e ele ainda não tinha vontade de voltar para casa.
Quando Humberto contemplava a sua árvore, sentia uma alegria imensa.
Acontecia também que as pessoas paravam junto à cerca – uma mãe ou um pai com um filho, por exemplo. Por vezes alguém exclamava:
— Olha, que bonita!
Mas a maioria das pessoas passava apressadamente. Parecia que havia muitas coisas urgentes a fazer naquela cidade tão pequena.
Assim passaram os anos. Humberto ficou mais velho. A cara ficou coberta de rugas. O cabelo ficou, primeiro grisalho, depois branco e, com o tempo, desapareceu como as folhas no Outono. Só a barba continuava a crescer luxuriante, cobrindo-lhe o queixo e descendo pelo pescoço até ao peito.
Humberto, contudo, continuava feliz, observando horas sem fim a árvore e os pássaros.
Se apanhava crianças atrevidas a roubar maçãs, limitava-se a rir e gritava:
— Assim é que elas sabem bem, não é?
Os miúdos, então, fugiam envergonhados.
Um dia, contudo, aconteceu uma coisa horrível. Era mais uma vez Outono. O vento forte batia violento nas janelas e fazia as folhas coloridas girar no ar. Das montanhas em redor vieram nuvens carregadas de tempestade. Eram tão negras, sinistras e assustadoras que as pessoas fugiram para casa. Humberto também fechou a janela depois do primeiro trovão, mas ficou a ver o que acontecia, abrigado atrás do vidro.
Logo começaram a cair grossos pingos de chuva na janela. Depois, abateu-se um chuveiro sobre a pequena cidade, como se alguém muito zangado tivesse aberto a torneira. Entretanto, os relâmpagos riscaram o céu, acompanhados de trovões cada vez mais fortes e ameaçadores. De repente, o coração de Humberto ficou paralisado de susto. Diante dos seus olhos, um raio riscou o céu e caiu sobre a macieira com um estrondo medonho. Ela estalou e gemeu enquanto o tronco se fendia em dois. Depois, a chuva refrescou a ferida.
A tempestade passou.
Ali estava a árvore que fora tão bela. Oferecia um aspecto muito triste. Ficara tão retorcida e nodosa como a casa. Uma visão estranha. O tronco tinha uma cicatriz que ia até às raízes poderosas.
— Isso dói — disse Humberto à árvore, dando-lhe uma palmadinha afectuosa. A árvore suspirou baixinho. E, se as pessoas soubessem que as árvores também choram, talvez Humberto tivesse reparado nas gotas que havia na casca da macieira.
A Primavera seguinte foi quente e cheia de sol. O canto dos pássaros era uma maravilha. As flores cresciam por toda a parte. Só a árvore continuava retorcida, nodosa e triste. Algumas folhas pequeninas tinham nascido e havia algumas flores em redor das quais as abelhas se atarefavam.
Mas, embora se esforçasse, a pobre árvore já não tinha forças para florir como no passado. Ainda tinha dores, quando o tempo mudava ou o sol lhe queimava o tronco. Mas isso não era o pior. Ultimamente, as pessoas paravam outra vez a olhar para ela. Sem coração, miravam-na e chamavam-lhe “feia” e “nódoa”.
— Aquilo devia ser cortado — tinha dito uma mulher, e um homem respondera que aquele era um bom local para um parque de estacionamento ou, pelo menos, para um relvado agradável, se a árvore não estivesse lá.
A árvore ficava cada vez mais triste. As lágrimas corriam pelos novos rebentos, tornando-os cada vez mais fracos.
Humberto irritava-se com os comentários das pessoas. Gostava da árvore tal como ela era. Observava as aves a esvoaçar nos ramos e, à noitinha, dava-lhe palmadinhas no tronco.
— Fora daqui! — gritava furioso, perseguindo com uma vassoura as pessoas pasmadas e surpreendidas.
No entanto, não servia de nada. Apareciam sempre outras pessoas com comentários desagradáveis.
Um dia, montou na sua bicicleta ferrugenta. Os vizinhos ficaram espantados com o sorriso que ostentava no rosto. Algumas horas mais tarde, regressou carregado. Foi a correr ao barracão buscar uma pá e começou a cavar energicamente junto ao tronco da macieira. Só parou quando já tinha uma cova bem funda. Aí plantou uma pequena macieira delicada, que mal lhe chegava à altura da barba. “Assim, pelo menos, vamos ficar livres daquela árvore,” pensaram as pessoas.
Mas Humberto sorriu malicioso, cobriu as raízes da macieira com terra, regou-a muito bem e foi arrumar a pá.
Passaram muitos anos. Primaveras, Verões, Outonos e Invernos, uns atrás dos outros. Humberto transformara-se num velho curvado, que se sentava satisfeito à janela. A pequena macieira crescera tanto e estava tão carregada de frutos que Humberto não conseguia comê-los todos sozinho. A velha árvore retorcida continuava no jardim. Protegida pelos ramos da árvore jovem, vivia sossegada e contente.
Bastavam-lhe as poucas folhas e rebentos que corajosamente produzia todas as Primaveras. Sorria secretamente sempre que uma criança roubava uma das suas maçãs, que já há alguns anos eram enrugadas e pequenas. As pessoas continuavam a passar apressadamente, tratando da sua vida. Já ninguém ligava às duas árvores. Contudo, de vez em quando, alguém parava e contemplava-as com satisfação.
Numa tarde de Outono, a árvore sentiu inesperadamente o toque familiar de uma mão. O velho Humberto caminhara silenciosamente até ela e murmurara-lhe qualquer coisa. A árvore acenara em resposta.
Também tinha sentido. O ar cheirava a neve. O Inverno estava à porta. Era tempo de repousar.
Enquanto os primeiros flocos de neve dançavam na janela e Humberto estava deitado na cama, a árvore, lá fora, também adormeceu.
E assim, dormindo sossegados, ambos sonhavam com a Primavera.

Bruno Hächler
Humberto e a Macieira
Porto, Ambar, 2000


Os quatro irmãos - Matilde Rosa Araújo

Era uma vez quatro irmãos, quatro irmãos diferentes como são as horas do dia. Eram três irmãos e uma irmã.
O primeiro era forte e loiro como um rei antigo. Tinha um olhar luminoso e fiel que só de olhar aquecia o coração. Na sua mão direita, estendida, parecia segurar uma estranha varinha – um raio de sol.
O segundo irmão vinha vestido de castanho dourado. Com um fato de folhas douradas pela luz. E na sua mão direita, estendida, trazia um fruto maduro da cor do ouro velho quando lhe dá o Sol.
E o terceiro irmão era velho e triste. Os cabelos brancos tombavam-lhe pela pele de carneiro que lhe cobria o corpo enregelado.
Na sua mão direita, estendida, não trazia nada, nada. E a mão tremia de frio. Ou talvez a mão vazia, estremecendo, escondesse um maravilhoso segredo.
E, por fim, ela, a menina, de cabelos lisos dourados e olhos verdes da cor das ervas tenras dos campos, cantava, segurando na mão direita uma estranha e bela flor.
E os quatro irmãos, vindos pelos caminhos livres da terra, chegaram a uma montanha, a uma alta montanha perto do Sol.
Mas quem são estes quatro irmãos tão diferentes? Ides sabê-lo vós mesmos, Amigos.
Vieram estes quatro irmãos, uns atrás dos outros, devagarinho.
E, no azul do Céu, o Sol pareceu parar, perguntando assim: – Por aqui? Todos ao mesmo tempo? E o Sol pareceu parar, fitando mais a menina:
– Tu, e os teus irmãos?
E redondo e parado, todo estremeceu parecendo zangar-se:
– Por aqui? Por aqui? Todos ao mesmo tempo?
Então a menina falou:
– Hoje, Sol nosso Amigo, saímos de nossa casa, que não tem paredes, nem telhado, nem janelas, e viemos aqui à montanha pelos caminhos livres da terra, falando com quem encontramos.
E acrescentou como se se desculpasse:
– Nós nunca andamos juntos, mas hoje...
O Sol estremeceu ainda:
– Mas o que será feito de vossa Mãe sem que um de vós lhe assista? Três de vós têm de ficar em casa...
O irmão mais velho, o da mão estendida que parecia vazia, respondeu:
– A Nossa Mãe-Terra continua a viver. É por pouco tempo que nós andamos assim... Não vês, Sol? Ora escuta... Vê... Voam e cantam os pássaros, correm os rios, vão e vêm as ondas do mar... Os homens trabalham, apitam as fábricas, revolvem-se os campos, vão as crianças para as escolas...
O Sol, apesar de tudo, inquietou-se:
– Vejo! Oiço! Mas vocês, vocês os quatro por aqui ao mesmo tempo! Não é costume. Não é bom nem prudente.
Os quatro irmãos olharam-se. Queriam explicar por que estavam todos ali, vindos da casa sem paredes, sem janelas. Aquela casa onde habitavam os quatro irmãos, estando um sempre na rua, correndo os caminhos livres da Terra.
Então, o irmão loiro, que parecia um rei antigo e trazia um raio de Sol na mão, resolveu falar:
– Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da terra, os quatro ao mesmo tempo, para que disséssemos aos homens que encontrarmos que somos amigos, embora bem diferentes tu nos vejas à tua própria luz. Embora diferentes, somos amigos, sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria...
Foi nossa Mãe quem nos mandou...
Os outros três irmãos sorriram, sorriram os três e continuaram de mão direita estendida, estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo.
E o Sol, docemente, com um calor todo suave perguntou:
– Vossa Mãe? Como ela me lembra sempre! Ela que pensa em tudo e em todos! Está muito velha a vossa Mãe?
Foi a vez de falar o irmão vestido de folhas doiradas, que trazia um fruto maduro na mão direita, estendida:
– Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a nós os quatro. E ama tudo e todos. Como pode envelhecer quem ama assim?
E o Sol pensou alto, então:
– Como tendes razão! Como pode envelhecer quem ama assim!
E sorrindo, isto é, brilhando mais, falou para os quatro irmãos:
– Continuai o vosso caminho pelos caminhos livres da terra. Mas não esqueçais que tendes de voltar para a vossa casa que não tem parede, nem telhado, nem uma janela, e um só de vós os quatro andar por fora. O que será da terra sem que um dos quatro irmãos lhe assista!
E os quatro irmãos apressaram-se a dizer:
– Tendes razão, Sol. Nós vamos.
E disseram adeus ao Sol e começaram a caminhar. E foram em direcção ao mar.
Chegaram junto a uma praia e viram consertando as redes um velho pescador de barbas grisalhas, moreno pelos ventos do mar, pela luz do Sol.
E o pescador, pressentindo-lhes os passos na areia dourada, ficou-se pensativo com a agulha no ar e perguntou por fim:
– Quem sois?
Os quatro irmãos sorriram e outra vez o mais velho respondeu:
– Tu conheces-nos. O ano inteiro nos conheces aqui nesta praia. Três meses por ano um de nós vem visitar-te. Acompanha-nos o Sol e o Vento, o Frio e a Chuva, a Bonança e a Tempestade. Olha bem para nós!
Então o velho pescador franziu os olhos já cansados de olharem tantos anos, e sorriu. E falou devagar:
– Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós, cada irmão por sua vez. Basta-me olhar o brilho das estrelas, o correr das nuvens, o bater do mar. Sei quando chega cada um de vós, deixando os outros irmãos em casa. Mas hoje, hoje vieram todos ao mesmo tempo...
Os quatro irmãos sorriram. E falou a irmã:
– Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas o mar, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.
E os outros irmãos sorriram, sorriram os outros três, e continuaram com a mão direita estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo feliz.
O pescador fixou este com mais força no olhar cansado, e observou-lhe:
– Tu, às vezes, fazes revolver o Mar, mais do que os teus irmãos agitar a Terra, e nós, pescadores, somos tragados pelas ondas frias.
O irmão mais velho pareceu agora mais velho, mas sereno respondeu:
– É assim a lei da vida que me manda experimentar os homens, a sua coragem. Mas o engenho do homem é imenso, a sua coragem, sem fim.
O pescador sorriu, continuou a consertar a sua rede e pensou alto:
– As praias batidas pelo mar tornam-se mais belas. A agitação das águas é a vida de milhões de peixes que enchem as nossas redes.
E a coragem do homem é sem fim, tendes razão...
E sorria, continuava sorrindo, os olhos, a boca, todo o rosto com suas rugas sorrindo, as próprias mãos pare¬cendo sorrir também, trabalhando muito depressa...
E os quatro Irmãos, três irmãos e uma irmã, caminharam de novo pela areia dourada aquecida pelo Sol.
E pararam junto de uma árvore onde se abrigava uma doce mulher embalando um filho pequenino que adormecia nos seus braços.
E a doce mulher cantava:
Quem tem filhinhos pequenos
Tem por força de lhes cantar
Quantas vezes uma mãe canta
Com vontade de chorar...

E a mulher, a doce mulher, suspendeu o seu canto e o seu embalo, e perguntou aos quatro irmãos:
– Quem sois vós?
E os quatro irmãos sorriram. E respondeu o que se vestia de dourado e trazia um fruto cor de ouro velho na sua mão:
– Tu conheces-nos. Sabes quando nós chegamos pelo canto dos pássaros, canto mais contente quando eles fazem o ninho na árvore que te dá sombra.
E continuou:
– Nossa Mãe mandou-nos pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas os campos e o céu embalando o teu menino, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.
Então a doce mulher sorriu, sorriu e falou:
– Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós pelo canto e pelo voo dos pássaros... Quando eles fazem os ninhos nesta árvore que me dá sombra, quando as flores nascem para me sorrirem por toda a casa, quando posso trincar um fruto como esse que tens na mão, tu irmão das folhas douradas... Mas hoje, hoje, viestes todos ao mesmo tempo... e não vos reconhecia.
E os quatro irmãos sorriram. E a irmã falou. Falou de mão estendida, com uma bela e estranha flor na sua mão:
– Foi nossa Mãe quem nos mandou...
E os quatro irmãos sorriam, os quatro com o braço direito estendido. Até o vestido de pele de carneiro parecia jovem, sorrindo feliz. Então a mulher perguntou:
– E como está a vossa Mãe, na vossa casa que não tem paredes, nem telhado, nem janelas? Muito velha, não?
Respondeu o irmão loiro que trazia um raio de Sol na mão estendida:
– Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a todos. Ama tudo e todos. Cuida de nós todos. De ti, também, e do teu menino que embalas tão docemente. Como pode envelhecer quem ama assim?
A mulher sorriu, entendendo, sorriu, e depois disse como se pensasse alto:
– Vocês vieram os quatro ao mesmo tempo pelos caminhos livres da Terra, da vossa casa sem telhado, sem porta e sem janelas, para que o Mundo seja contente, para que todas as mães cantem sem vontade de chorar...
E ficou-se a sorrir como se dissesse adeus, com uma lágrima sobre o rosto cansado.
Então os quatro irmãos resolveram voltar a casa.
Já a Lua no Céu lhes sorria como uma candeia de prata. Alumiava-lhes de mansinho, rodeada de estrelas, o caminho da casa, a casa sem telhado, sem portas e janelas, onde a Mãe os esperava com os dois braços estendidos, sorrindo, parecendo estar muito longe e muito perto.
E a Mãe, esperando-os, murmurava sorrindo com uma voz cheia de amor:
– Meus filhos!
E abraçou-os um a um, devagarinho, com muito amor, lágrimas de felicidade fugindo-lhe pelo rosto enrugado e feliz.
E os quatro Irmãos entraram sorrindo, com o Sol, a Chuva, o Vento no coração.
E contaram à Mãe, à sua velha Mãe, o que haviam visto, os quatro ao mesmo tempo, nos caminhos livres da Terra...
Deixai-os contar, um depressa terá que sair por três meses do Ano – terá de deixar a casa sem porta, sem janelas, sem telhados.
E se eu vos não digo os nomes destes quatro irmãos, três irmãos e uma irmã, é porque vos quero dar a alegria de os descobrirdes sozinhos, assim como quem descobre quatro segredos que têm um nome só, igual ao de sua Mãe.



Matilde Rosa Araújo
Os Quatro Irmãos
Lisboa, Livros Horizonte, 1983
Texto adaptado