Mostrar mensagens com a etiqueta poluição. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poluição. Mostrar todas as mensagens

17/07/2007

A nossa Terra é sagrada - Carta do Chefe Índio Seattle



Carta do Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta do Governo norte-americano de comprar grande parte das terras da sua tribo Duwamish, em troca da concessão de uma reserva.


Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-los?
Para o meu povo, não há um pedaço desta terra que não seja sagrado. Cada agulha de pinheiro cintilante, cada rio arenoso, cada bruma ligeira no meio dos nossos bosques sombrios são sagrados para os olhos e memória do meu povo.
A seiva que corre na árvore transporta nela a memória dos Peles-Vermelhas, cada clareira e cada insecto que zumbe é sagrado para a memória e para a consciência do meu povo. Fazemos parte da terra e ela faz parte de nós. Esta água cintilante que desce dos ribeiros e dos rios não é apenas água; é o sangue dos nossos antepassados.
Os mortos do homem branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da Terra que é Mãe. Fazemos parte dela. E a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos.
As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família. Se vendermos esta terra, não ireis, decerto, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada. Como poderei dizer-vos que o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai...
Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, trazem até nós os peixes… E, além do mais, cada reflexo nas claras águas dos nossos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes. Sim, Grande Chefe de Washington, os nossos rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.
Se vos vendêssemos a nossa terra, teríeis de recordar e de ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E é por isso que eles devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a um outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã mas como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.
Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe interessa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua Mãe-Terra e o seu Irmão-Firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem tal como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devora a terra, deixando atrás de si um completo deserto.
Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do homem pele-vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.
O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me: que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou o diálogo nocturno das rãs em redor de uma lagoa? Sou um pele-vermelha e não consigo entender. Nós preferimos o suave murmúrio do vento sobre a superfície de um lago, e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.
Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido desta terra, quando a sua sombra não for mais do que uma lembrança, como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos esta terra como uma criança ama o bater do coração da sua mãe.
Se decidisse aceitar a vossa oferta, teria de vos sujeitar a uma condição: que o homem branco considere os animais desta terra como irmãos.
Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecer, abandonados nas pradarias, mortos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, que apenas matamos para sobreviver.
Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. Se tudo desaparecer, o homem pode morrer numa grande solidão espiritual. Todas as coisas se interligam. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos sobre a terra: que a Terra é nossa Mãe e que tudo o que lhe acontece a nós acontece aos filhos da terra.
Se o homem cuspir na terra, cospe em si mesmo. Sabemos que a terra não pertence ao homem, mas que é o homem que pertence à terra. Os desígnios terrenos são misteriosos para nós. Não compreendemos porque os bisontes são todos massacrados, porque são domesticados os cavalos selvagens, nem por que os lugares mais secretos dos bosques estão impregnados do cheiro dos homens, nem porque a vista das belas colinas está guardada pelos “filhos que falam”.
Talvez um dia sejamos irmãos. Logo veremos. Mas estamos certos de uma coisa que talvez o homem branco descubra um dia: o nosso Deus é um mesmo Deus. Agora podeis pensar que Ele vos pertence, da mesma forma que acreditais que as nossas terras vos pertencem. Mas não é assim. Ele é o Deus de todos os homens e a sua compaixão alcança por igual o pele-vermelha e o homem branco.
Esta terra tem um valor inestimável para Ele e maltratá-la pode provocar a ira do Criador. O que é feito dos bosques profundos? Desapareceram. O que é feito da grande águia? Desapareceu também. Mas o homem não teceu a trama da vida: isto sabemos. Ele é apenas um fio dessa trama. E o que lhe faz, fá-lo a si mesmo.
Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um fio e está a desafiar a desgraça se ousar destruir essa rede. Tudo está relacionado entre si como o sangue de uma família. E, se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos. Assim se acaba a vida e só nos restará a possibilidade de tentar sobreviver.

Plantar árvores para curar a terra


Desde a independência do Quénia, nos anos 60, que o governo tem trabalhado para modernizar o país, mas muitos problemas se têm deparado. À medida que a população cresce, mais árvores são cortadas para se obter terra para cultivar e lenha para cozinhar e aquecer. Sem as raízes das árvores para segurar a terra, as chuvas fortes fazem desaparecer o solo fértil. As florestas estão a dar lugar a novos desertos.


Esta é a história de alguém que está a trabalhar para melhorar a vida dos habitantes do Quénia. O nome dela é Wangari Maathai, e o seu trabalho não é nada fácil.
Wangari Maathai foi uma das quenianas que tiveram a sorte de receber uma formação académica. Na escola, disseram-lhes, a ela e aos outros jovens, que seriam eles os futuros líderes do país. Teriam a responsabilidade especial de trabalhar para ajudar o povo queniano. Wangari tomou a sério esta responsabilidade. Quando acabou a escola e viu o que estava a acontecer à terra, decidiu ajudar a plantar árvores. Não umas poucas árvores no jardim lá de casa, nem algumas centenas numa pequena floresta, mas milhares de árvores, milhões mesmo.
O seu primeiro projecto não correu muito bem. Conseguiu obter de graça seis mil árvores, mas estas eram frágeis, com raízes pequenas e apenas algumas folhas. Decidiu dá-las a plantar a pessoas que precisavam muito de trabalho. Mas essas pessoas não tinham nem as ferramentas necessárias, nem dinheiro para irem de autocarro até ao trabalho. Acresce que, devido a uma época de seca excessiva, o governo decidiu que não se podia utilizar água nos jardins. Apenas duas das pequenas árvores não morreram. Foi um começo muito desencorajador.
Por essa altura, Wangari foi a uma conferência das Nações Unidas no Canadá. Conheceu pessoas como Margaret Mead e Madre Teresa, pessoas com muita experiência no que dizia respeito a melhorar as vidas dos outros. Isso deu-lhe forças para continuar a tentar, mas percebeu que não poderia fazê-lo sozinha.
Wangari voltou para o Quénia e fundou uma associação de mulheres de todo o país. O seu primeiro projecto foi levar líderes importantes a plantar sete árvores em Nairobi, a capital do Quénia, em honra de sete heróis quenianos importantes. Conseguiram ver as suas fotografias no jornal e obtiveram muita publicidade. Infelizmente, as pessoas que deveriam ter tomado conta das árvores não lhes deram água suficiente. As árvores depressa morreram.
Em seguida, Wangari e a associação estabeleceram o objectivo de plantar milhões de árvores em terrenos públicos. As pessoas que viviam perto olhariam por essas árvores. Chamaram ao projecto “Salvem a Terra Haram-bee” (Ha-rahm-BAY quer dizer ”Caminhemos na mesma direcção”).
O departamento florestal do governo gostou dos projectos das mulheres e concordou em dar-lhes, de graça, plantas semeadas. Mas quando o comité pediu quinze milhões de plantas ainda novas, o departamento decidiu que não podia ser assim. Quinze milhões eram demasiado.
Isto deu outra ideia a Wangari. Além de ajudar a terra, queria dar poder às pessoas que não o tinham. Por que não treinar as mulheres para criar viveiros de árvores? Assim, as mulheres poderiam ganhar dinheiro ao fornecer-lhe as árvores que ela queria plantar.
A ideia funcionou. As mulheres foram ensinadas a fazer enxertos de árvores que cresciam naturalmente nas suas zonas. Aprenderam a plantar árvores, a cuidar delas e a gerir um pequeno negócio. Estavam a aprender a ajudar-se a si próprias e, ao mesmo tempo, a ajudar a terra. Era maravilhoso.
Em breve, as pessoas começaram a plantar os tipos certos de árvores, da forma correcta. Plantavam-nas em fila, de modo a servirem de barreira contra o vento e a manter a humidade do solo. À medida que as árvores cresciam e os seus ramos se expandiam, podiam ser podadas. As que eram abatidas serviam como lenha. O que era igualmente maravilhoso.
Todas as rádios e televisões davam notícias sobre as plantas e as árvores novas. Chegaram cartas de escolas, de igrejas, de instituições públicas, a pedir árvores para plantar. A ideia de Wangari ganhou um novo nome. Passou a chamar-se Green Belt Movement.
Por todo o Quénia, tanto nas cidades como nas aldeias, as pessoas começaram a formar associações. Os membros do Green Belt reuniam-se para explicar a importância das árvores. Arranjavam ferramentas de jardim, tanques de água, e davam formação àqueles que eram contratados para olhar pelas árvores. Muitas vezes, contratavam pessoas com deficiências, para as quais encontrar trabalho era ainda mais difícil. Centenas de pessoas conseguiram assim emprego.
Wangari descobriu que, frequentemente, as pessoas plantavam as árvores com grande entusiasmo, mas que depois desistiam de cuidar delas. Por isso, muitas árvores morriam. Então, os membros do Green Belt tentaram uma ideia nova. Sempre que se plantavam novas árvores, prometiam mandar a essas pessoas dinheiro pelas árvores que ainda estivessem vivas, seis meses depois da plantação. Saber que seriam monetariamente recompensadas fazia com que as pessoas fossem mais cuidadosas com as pequenas árvores enquanto estas criavam raízes.
Wangari estava preocupada, porque muitos plantadores de árvores tinham trazido novos tipos de árvores que cresciam rapidamente. Estas podiam ser cortadas e vendidas mais cedo do que as árvores naturais do Quénia. As pessoas descobriram que, assim, conseguiam dinheiro mais depressa. Mas as árvores que são plantadas para serem abatidas dentro de poucos anos não resolvem o problema da erosão do solo. E estas árvores perturbam o equilíbrio próprio da natureza. Além de lenha e material para construção, as árvores nativas do Quénia fornecem igualmente forragem para animais, frutas, mel e ervas medicinais, coisas que as árvores importadas não provêm.
Wangari está a trabalhar arduamente para ensinar às pessoas que as árvores nativas são melhores para o Quénia e apercebe-se de que os seus esforços não têm sido em vão. Em apenas doze anos, foram criados mil e quinhentos viveiros de árvores. Mais de dez milhões de árvores nativas foram plantadas em terrenos públicos pelo Green Belt Movement. Muitas estão em cinturas verdes perto de escolas e são as crianças da escola que tomam conta delas. Mais de um milhão de crianças fazem este trabalho. Cada criança cuida de uma ou de duas árvores.
Em 1989, o Global Windstar Awards deu a Wangari Maathai dez mil dólares pelo seu trabalho de plantação de árvores e de defesa do ambiente no Quénia. As pessoas perguntaram-se o que iria ela fazer com todo esse dinheiro. Na cerimónia de entrega do prémio, anunciou que o daria a viveiros de árvores e às associações do Green Belt Movement noutras partes de África.
Wangari Maathai fala sobre “aquilo que há de Deus” em todos nós. Acredita que “o que há de Deus” é a nossa capacidade de nos importarmos com as pessoas – todas as pessoas – e com a nossa terra preciosa.



Janet Sabina e Marnie Clark

João Ar-Puro no país do fumo - José Jorge Letria

João Ar-Puro era o melhor amigo das águas, dos pássaros, dos peixes e das árvores de fruto. Era amigo dos camponeses e dos animais domésticos. Todos gostavam dele por ser alegre, trabalhador e saudável.
Tinha ombros largos, bochechas rosadas e mãos grandes, generosas, sempre prontas a ajudar quem estivesse triste, desamparado ou aflito.
João Ar-Puro era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte. Com eles aprendera a respirar fundo o ar fresco que vem dos campos, cheirando a hortelã e a rosmaninho, a encher o peito com a aragem fria do mar, que sabe a sal, a maresia e a sonhos de viagens.
Havia rapazes e raparigas da sua idade que, escondidos atrás das cortinas baças das janelas, se riam dele por andar sempre a correr e a saltar, por colher fruta nos pomares, por acompanhar com os olhos o voo livre dos pássaros, a rota das estrelas e dos cometas. Chamavam-lhe sonhador, como se isso fosse um defeito ou uma doença incurável. Mas ele não se importava. E, quanto mais eles se riam, mais ele se sentia bem com a vida que levava, entre a água e o vento, entre o sol e a terra semeada.
João Ar-Puro nascera no País da Primavera, na Aldeia das Águas Azuis. Às cavalitas do pai ou ao colo da mãe conheceu terras distantes, outros povos e continentes, aprendeu os nomes das flores, das montanhas, dos rios e das cidades. Em todos os lugares por onde passou deixou amigos, como se semeasse plantas que duram a vida inteira.
Foi à escola para aprender coisas úteis como, por exemplo, as letras que compõem o alfabeto, os algarismos com que as contas são feitas, os pontos, as vírgulas, as operações de multiplicar e dividir, os nomes dos países e dos mares. Mas pouco lhe disseram sobre a vida das plan­tas e dos frutos, sobre os poderes imensos da água, do fogo e do vento. E era isso precisamente o que João Ar-Puro queria aprender. Porque esse era o seu mundo, o mundo livre e secreto onde nascera, onde começara a andar, a respirar e a falar.
Foi assim que decidiu começar a estudar noutra escola: a da Natureza. A brincar e a trabalhar nos campos, aprendeu, dia após dia, a linguagem das pedras, dos pássaros e das florestas. Às vezes, os seus companheiros de brincadeira riam-se dele por pensarem que falava so­zinho. Mas enganavam-se, porque cada palavra, cada frase que dizia, tinha sempre uma resposta da parte da Natureza, uma resposta que normalmente era difícil de explicar, de traduzir, mas que ele entendia com facilidade, porque era dada na linguagem ao mesmo tempo estra­nha e bela da vida e do sonho.
João Ar-Puro sabia que a Natureza andava preocupada, inquieta, que acordava por vezes sobressaltada a meio da noite.
— Não gosto de te ver assim. Gostava de saber o que te preocupa — disse ele à Natureza, que era uma mulher sem idade, com grandes olhos verdes da cor do mar de Setembro e longos cabelos de prata fina.
— Ando preocupada porque todos os dias me chegam notícias de que os meus filhos sofrem.
— Os teus filhos? — apressou-se João a perguntar.
— Sim, os meus filhos — insistiu ela — os peixes, as águas, as árvores, os pássaros. Sei que sofrem com os fumos das fábricas nas grandes cidades, com o óleo que deitam nas águas azuis do mar, com os ruídos das buzinas e das sirenes, com o lixo que lançam nas praias e na relva fresca dos jardins públicos, com as coisas estragadas que lhes dão a comer, a beber e a cheirar.
Parou um instante para suspirar e continuou:
— Com todo o mal que lhes fazem, eles adoecem e às vezes morrem. Mesmo que nada disso lhes aconteça, andam tristes por verem os seus irmãos a sofrer e eu, claro, sofro com eles, sinto o que eles sentem e gostava de os ajudar, mas acho que nada posso fazer.
João Ar-Puro reparou que duas grandes lágrimas de água limpa deslizavam pelas faces da Natureza e apeteceu-lhe chorar com ela. Mas pensou: “Chorar nada resolve. O que é preciso é fazer alguma coisa.” Agarrou as mãos da Natureza e pediu-lhe para não chorar, porque tudo se havia de resolver. “Mas o quê?” — perguntou a si próprio em silêncio e não foi capaz de descobrir a resposta.
A Natureza, ao vê-lo preocupado e comovido, sentiu que podia contar com ele.
— Sempre que puderes — pediu ela — ajuda os meus filhos que estiverem em dificuldades. É como se me ajudasses a mim própria.
Dizendo isto, depositou-lhe nas mãos um pequeno tufo de musgo húmido sobre o qual brilhava uma minúscula estrela, igual às que moram no veludo imenso e negro do céu. João Ar-Puro guardou com muito cuidado o presente que acabara de receber e voltou para casa, sem conseguir tirar da cabeça as palavras que a Natureza lhe dissera. Palavras de que nunca mais iria esquecer-se, ele que era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte e que, por isso mesmo, se sentia também filho da Natureza.
Guardou o tufo de musgo e a estrela numa pequena caixa de vidro, mas depois achou que era melhor colocá-los no parapeito da janela do seu quarto para poderem respirar à vontade, para verem o Sol e a Lua, para sentirem o cheiro da terra, da chuva e das rosas bravas. Sim, porque as estrelas também respiram e cheiram e sentem. Senão, como haviam de dar tanta luz?
João Ar-Puro sabia de cor os nomes dos meses, das estações do ano, das fases da Lua, dos ciclos das chuvas e das marés. Sabia muito mais coisas que não guardava só para si, que partilhava com todos os seus amigos, por achar que a sabedoria, tal como a alegria, não devem pertencer a uma só pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas. Devem, isso sim, ser um bem de todos e para todos.
Desde que ouvira as palavras inquietas da Natureza, nunca mais tinha ficado em sossego consigo próprio. Entendia, e com razão, que era preciso não ficar de braços cruzados.
Todos os dias, os pássaros, as borboletas e os raios de sol e de luar lhe traziam notícias tristes sobre o mal que os homens andavam a fazer às águas, à terra e ao vento.
Numa noite de Verão, enquanto dormia no ramo de um grande carvalho, teve um sonho estranho. Imaginou que o tinham vindo chamar para ajudar a defender a Natureza de todos os males que andavam a fazer-lhe. Sonhou-se a galopar na crista branca das ondas do mar, com uma espada de algas e um capacete de coral.
— Faz o que for preciso fazer — dizia-lhe a Natureza, durante o sonho — para que não esmoreça o verde das plantas, o azul das águas, o oiro do trigo maduro.
Sentiu-se feliz por estar a ter aquele sonho, por se sentir uma espécie de herói no meio de fumos, de montes de lixo, de bocas cansadas de tossir.
Acordou de repente com um calor esquisito na cara. Abriu os olhos devagar e foi como se o sonho não tivesse ainda terminado, porque na sua frente estava um dragão, um dragão verdadeiro com escamas prateadas, grandes olhos negros e brilhantes e uma língua de fogo.
— Não te assustes — murmurou o dragão — que não te quero fazer mal.
— Mas quem és tu e o que fazes aqui? — perguntou João Ar-Puro, assustado.
— Eu sou o Dragão do Lago dos Sonhos e sou, como tu, amigo dos pássaros, das plantas, das estrelas, dos peixes e dos camponeses. Tenho outros amigos que não conheces, mas que gostaria de te apresentar: os unicórnios, os duendes e as sereias que moram comigo no Lago dos Sonhos...
— Mas ainda não me disseste o que te traz por cá — insistiu João, receoso.
— Foi a Natureza que me pediu para te procurar. Sou também amigo dela, e às vezes visito-a no seu palácio de folhas verdes. Na última visita que lhe fiz, encontrei-a mais triste e preocupada do que é costume. Então, ela contou-me que tinha recebido notícias do País do Fumo, onde os seus filhos estavam ameaçados de grandes males e sofrimentos. Perguntei-‑lhe o que havia de fazer para a ajudar e ela disse-me para te procurar porque só tu podias auxiliá-la neste momento difícil.
— Mas como posso eu ajudá-la? — inquiriu João Ar-Puro.
— Não te esqueças que te chamas Ar-Puro e que só alguém como tu pode vencer os inimigos que temos no País do Fumo.
— Mas eu nem sequer sei onde fica esse país.
— Não te preocupes, que eu levo-te lá.
O Dragão do Lago dos Sonhos ajudou-o a subir para o seu dorso de escamas prateadas. Depois deitou umas labaredas violetas pelas narinas, tomou balanço e elevou-se no ar com a leveza de uma folha embalada pelo vento da manhã.
Atravessaram a noite escura com a velocidade de um cometa, deixando, como ele, à passagem, um rasto de luz, uma espécie de pó de estrelas igual ao que as fadas lançam com a ponta das varinhas mágicas.
Viram as cidades adormecidas, os operários a caminho das fábricas, os varredores e as vendedeiras de peixe e de flores a caminharem com passo rápido em direcção aos mercados e às feiras. Viram nuvens de fumo espesso a saírem das altas chaminés e gaivotas esvoaçando sobre os cais, a despedirem-se dos pescadores que partiam para o alto mar.
João Ar-Puro não sentia sono nem cansaço. Estava desperto como nunca e pensava: “É belo o mundo visto daqui de cima. Parece uma grande bola de cristal cheia de gente viva!”
— Agarra-te bem que vamos começar a descer para o País do Fumo. Vais sentir os olhos a arder e a garganta a doer. Quando aterrarmos, ficarás entregue a ti próprio, à tua força, à tua imaginação. Não esqueças que todos os teus amigos contam contigo.
O Dragão do Lago dos Sonhos teve dificuldade em aterrar no País do Fumo, como se fosse um avião a jacto num dia de nevoeiro. Também ele, embora estivesse habituado às labaredas e aos tormentos do fogo, tinha os olhos a arder e a garganta áspera. Ouvia João Ar-Puro a tossir, ajeitando-se, incomodado, sobre o seu dorso de escamas lisas.
Aterraram, por fim, numa grande praça, no meio do País do Fumo, quando a manhã já ia alta. Mas o fumo era tanto que não se percebia muito bem se era noite ou se era dia.
— Tenho de te deixar aqui. Espero que tenhas coragem para fazeres o que há a fazer. Eu e a Natureza estamos contigo. Daqui a uma semana aterrarei de novo neste local para te levar de volta, são e salvo, à tua terra.
João Ar-Puro apeou-se do dragão, trémulo de medo, vendo todo aquele fumo à sua volta, um fumo espesso que não o deixava parar de tossir.
Olhou em redor e viu alguns vultos a recortarem-se no meio do fumo. Quis aproximar-‑se deles mas, quando chegou perto, já tinham desaparecido.
— O que hei-de fazer agora? — perguntou a si mesmo em voz baixa, tentando vencer o medo que lhe prendia as pernas. Ao fim de uns instantes, decidiu-se e partiu à procura dos pássaros, das plantas e dos peixes. Mas onde havia de encontrá-los, se o fumo era tanto que mal via o chão que pisava?
Procurou árvores e lagos, jardins ou praias. Mas nas primeiras horas de busca nada conseguiu encontrar.
Quase lhe apeteceu desistir, cruzar os braços e correr atrás do dra­gão, mas achou que não devia fazê-lo, que era já demasiado tarde. Foi então que lhe poisou no ombro um rouxinol de olhar triste.
— Estávamos à tua espera — disse o rouxinol em voz baixa, para ninguém ouvir.
— Mas como sabiam que eu vinha?
— Foi um cometa nosso amigo que nos trouxe a notícia.
— Conta-me então o que se passa neste país — pediu João Ar-Puro.
— Levaria horas a contar-te — respondeu o rouxinol de olhar triste.
— O tempo de que dispomos é curto, mas podes começar a contar.
O rouxinol, respirando com dificuldade no meio do fumo, iniciou o relato:
— O fumo das fábricas, dos escapes dos automóveis, dos cigarros e dos charutos tomou conta deste país. Por isso ele se chama País do Fumo.
Parou um instante para respirar e continuou:
— Quem manda aqui é um homem carrancudo e mau, chamado Fumador-Mor. Fuma cigarros atrás de cigarros e, quando os cigarros acabam, fuma charutos e cachimbos. Desloca-se de um lado para o outro sobre uma grande nuvem de fumo negro e dá ordens para que sejam construídas novas fábricas com enormes chaminés que, recortadas no cinzento dos dias, parecem monstros de muitas cabeças. A mulher do Fumador-Mor é a Tossidora-Mor, que também passa os dias a fumar. Tem criados para tudo e manda castigar quem não lhe obedece.
— E vocês o que fazem? — perguntou o João Ar-Puro.
— O que havemos nós de fazer? Andamos fracos e doentes por causa de todo este fumo. Bem, mas o melhor é vires comigo, para te mostrar o que se está a passar.
E lá foram os dois, caminhando com dificuldade pelo meio de nuvens de fumo denso. Primeiro, foram visitar os peixes do mar. Já quase não vinham à superfície com medo do fumo, mas, mesmo lá no fundo, adoeciam por causa do óleo lançado nas águas pelos petroleiros e pelos cargueiros que partiam para grandes viagens. Muitos cardumes tinham fugido em busca de águas limpas, outros tinham morrido e os que estavam vivos andavam tristes e doentes.
Em seguida, atravessaram um grande pomar e ouviram as queixas das árvores de fruto, vergadas pela falta de ar. Olharam para as suas folhas amarelas e para os seus ramos e para os seus frutos mirrados. Tiveram pena delas e, por isso, acharam que era ainda mais urgente fazer alguma coisa, encontrar uma rápida solução.
— Com este fumo — disse-lhes uma abelha — já nem conseguimos fazer mel. Para o fazermos, precisamos de ar puro, de flores saudáveis e cheias de pólen. Mas elas deixaram de existir no País do Fumo. Por isso, estamos a pensar voar para outro lado. Mas nem para isso temos forças.
Os pássaros, amigos do rouxinol de olhar triste, contaram também a João Ar-Puro o mal que o fumo lhes fazia. E um deles chegou mesmo a dizer:
— Para nós, além do fumo, o pior ainda é não conseguirmos ver o Sol, porque as nuvens cobrem completamente o azul do céu. E um pássaro que não pode ver o Sol e o azul do céu sente-se doente e sem liberdade. É assim que nós nos sentimos!
João e o rouxinol foram refugiar-se numa gruta perto do mar, para não serem descobertos pelos Cigarros-sem-Filtro que eram a polícia do Fumador-Mor.
Conversaram até de madrugada à procura de uma solução. Mas não havia meio de a encontrarem.
— Se calhar — disse o rouxinol, com o olhar ainda mais triste do que era costume — o melhor é desistirmos e deixarmos que as coisas continuem assim. Tu Voltas para a tua terra e nós ficamos-te agradecidos na mesma pela boa vontade que demonstraste.
— Não penses nisso — respondeu João Ar-Puro com firmeza. — Agora é que estou mesmo decidido a ajudar-vos a resolver este grave problema.
— Mas como havemos de resolvê-lo?
— Tenho a impressão de que encontrei a resposta para a tua pergunta.
— Conta-me depressa qual é — disse o rouxinol com os olhos pequeninos a brilhar.
— Vamos reunir num sítio seguro todos os nossos amigos: os pássaros, as plantas, os peixes... todos aqueles que sofrem com o fumo. Por isso, chamaremos também as pessoas que encontrarmos nas ruas, cheias de tosse e com os olhos vermelhos por causa de tanta fumarada. É bom que partas depressa e as chames todas para um lugar onde não haja o perigo de sermos descobertos.
O lugar escolhido foi uma clareira muito abrigada no meio da floresta. Abrigada dos ventos e dos olhares indiscretos. O sítio ideal.
Ao fim de uma hora, começou a juntar-se a multidão dos filhos da Natureza.
Tinham um ar doente e preocupado, mas, ao mesmo tempo, havia nos seus olhos cansados uma réstia de esperança.
João Ar-Puro empoleirou-se num tronco de pinheiro e dirigiu-lhes a palavra:
— Pedi-lhes que viessem para, juntos, podermos encontrar uma solução para o problema que vos aflige.
— Mas o que havemos de fazer? — perguntou, em coro, a multidão, no meio da qual se viam também muitas pessoas fartas de tanto fumo.
— Vamos juntar-nos todos na maior praça que houver neste país, vamos aproveitar o ar que ainda temos dentro dos pulmões e vamos soprar, com quanta força tivermos, até conseguirmos expulsar de vez o fumo desta terra.
João ouviu um “ah” de espanto a elevar-se no ar e logo a seguir uma voz que perguntava:
— E onde temos nós fôlego que chegue para isso?
— Dentro do peito, nos pulmões, nas guelras, eu sei lá, na nossa força de vontade — respondeu João Ar-Puro, determinado.
Da clareira na floresta, partiram em pequenos grupos para a maior praça que conheciam. Quanto se juntaram todos, perceberam que se apertava já à sua volta um cerco feito por um verdadeiro exército de Cigarros-sem-Filtro.
Entre a multidão estavam as baleias, os linces, os golfinhos, todas as aves e plantas raras que existiam no País do Fumo e todos eles exclamavam, olhando uns para os outros e aguardando uma ordem de João Ar-Puro: “É agora ou nunca!” Mas, ao mesmo tempo, havia quem perguntasse: “será que conseguimos?”.
João pediu que se juntassem todos, muito juntinhos, como se fossem as pedras de uma muralha, e que se virassem para o sítio onde havia mais fumo. Depois disse-lhes:
— Quando eu gritar “agora!” soprem todos com força para furarmos o cerco dos Cigarros-sem-Filtro e fazermos desaparecer de vez o fumo desta terra.
— E aqueles que não têm boca nem bico para soprar? — perguntou o rouxinol de olhar triste.
— Bem — respondeu João — esses sacodem as asas, as folhas, mexem como puderem para fazer vento, para agitar o ar.
E, dizendo isto, respirou fundo e gritou como estava combinado, a palavra “agora”.
Nesse instante, levantou-se uma forte ventania que empurrou para muito longe o exército dos Cigarros-sem-Filtro e com eles o fumo espesso que há muitos anos incomodava os habitantes do país.
— Não parem de soprar! Não parem de soprar! — gritava João Ar-Puro sem esconder o entusiasmo e a alegria que estava a sentir nesse momento.
Pássaros, peixes, plantas, homens, mulheres e crianças faziam todo o vento que podiam e, se por um instante se cansavam e perdiam o fôlego, logo ganhavam novas forças e voltavam à carga.
Foi assim, graças ao esforço e à coragem de todos, que o fumo desapareceu quase por completo, deixando apenas, suspensas no ar, pequenas nuvens avermelhadas.
Lá em cima, muito azul, via-se agora o céu e, no meio dele, um gigantesco Sol sorridente que os saudava a todos com os seus belos raios muito brilhantes.
À saudação do Sol todos corresponderam com gritos de alegria, com saltos e acenos. Nem queriam, afinal, acreditar na grande vitória que tinham alcançado. Tratava-se agora de voltarem às suas vidas, já libertos de preocupações, com ar puro e fresco para respirarem.
E assim, os peixes voltaram a nadar felizes, as árvores a dar lindos frutos sumarentos, os pássaros a voar alegres, as plantas a dançar ao sabor da brisa da manhã, as pessoas a rir e a cantar no meio das praças e dos jardins.
Ao ter notícia da vitória dos filhos da Natureza, o Fumador-Mor e a Tossidora-Mor escaparam, pela calada da noite, com o que restava da sua guarda, montados numa nuvem negra e feia. Soube-se depois que acabaram os seus dias, tristes e zangados, no País da Falta de Ar, entre montes de carvão e grandes caixotes de lixo.
Os filhos da Natureza, para celebrarem a vitória e o regresso do Sol e do céu azul, fizeram, na grande clareira da floresta, uma festa que durou vários dias. Vieram palhaços, trapezistas, acrobatas, bailarinas, músicos e actores. Cantou-se e dançou-se, bebeu-se água fresca das fontes e todos trocaram entre si flores com as cores do arco-íris.
Quando o dragão do Lago dos Sonhos chegou, no dia marcado, para levar de volta João Ar-Puro, também entrou na festa, usando o fogo das suas narinas para acender as velas que iluminavam a noite.
João subiu, cansado e feliz, para o dorso de escamas prateadas e voou através do céu limpo e azul a caminho da sua terra distante.
À sua espera, no regresso, tinha a Natureza com os filhos à volta. Queriam agradecer-‑lhe tudo o que tinha feito. Deram-lhe uma linda estrela doirada e uma cabana de folhas verdes no meio do Bosque dos Unicórnios.
O País do Fumo, hoje, já só existe no coração dos sonhos e dentro das histórias que se contam às crianças.


José Jorge Letria
João Ar-Puro no país do fumo
Porto, Edições Asa, 1999

O sonho da floresta - Kenneth Steven

Há muito, muito tempo, antes da chegada do homem branco ao Novo Continente, Lalita, uma jovem índia, levantou-se uma certa manhã a tremer: tinha tido um pesadelo. Sonhara que majestosas aves brancas atravessavam o oceano, acompanhadas por um vento tão forte que todas as árvores se curvavam à sua passagem.
Tinha até ouvido a floresta chorar.
— O que quer isto dizer? – perguntou aos pais.
Mas nem o pai nem a mãe souberam explicar-lhe.
— Foi apenas um sonho, Lalita – disse o pai. — Não te inquietes, minha filha.
Mas, um dia, pouco tempo depois deste curioso sonho, numa altura em que estava a contemplar o horizonte, Lalita pensou ter visto, ao longe, enormes aves brancas que voavam ao seu encontro por cima do mar. Não eram – infelizmente – aves majestosas, mas antes as velas brancas de imponentes navios, a bordo dos quais se encontravam estranhos indivíduos. Lalita estremeceu, o sonho tornava-se realidade.
Os homens vindos do Oceano chegaram a terra. Possuíam machados e nenhum respeito tinham pela floresta. Nem sequer se preocuparam com os índios que, ao contrário deles, amavam as árvores e compreendiam a sua linguagem. Começaram então os homens brancos a abater, uma a uma, as árvores da floresta. Acarretavam as árvores mortas até aos navios, deixando para trás a terra desolada e nua. Uma vez desaparecida a floresta, nada mais restava a Lalita senão chorar. Já não havia vivalma na floresta, nem ursos nem aves. E os próprios índios se puseram em fuga, os velhos apoiados nos bastões e os bebés nos braços das mães.
Lalita não queria fugir. O coração dizia-lhe que ficasse junto das árvores bem-amadas e não as abandonasse.
— Irei mais tarde – prometeu à mãe. Refugiou-se então numa gruta. Cheia de terror e de desespero, viu os homens brancos destruírem a floresta. Ouviu também choros de crianças. Em verdade, eram os gritos de dor das árvores abatidas pelos machados. Lalita sentiu que o seu coração se partia. Viu e escutou tudo, até ao momento em que os homens brancos levaram a última árvore, desaparecendo por fim.
Ao cair da noite, Lalita deixou o refúgio. No céu, as estrelas brilhavam como diamantes. Os reflexos cor de safira, rubi e esmeralda da aurora boreal acariciavam os cumes das montanhas. Mas Lalita nada via desse espectáculo. Chorava a floresta cujas árvores conhecera uma por uma. Chorava a terra devastada que outrora acolhera o seu povo. E as lágrimas impediam-na de ver o crescente prateado da lua a subir no céu e a resplandecer num silêncio de morte.
Lalita estava estendida, imóvel. Apenas os cabelos ondulavam sobre a terra deserta. Durante sete dias e sete noites assim permaneceu. Durante sete dias e sete noites Lalita chorou. E chorou tanto que um riacho nasceu das suas lágrimas.
E do riacho brotou uma cascata.
E as lágrimas de Lalita espalharam-se pela terra seca formando novos rios.
Na manhã do oitavo dia, algo de inesperado ocorreu. Um rebento surgiu na beira do rio de lágrimas. E o rebento transformou-–se numa campainha tão branca e suave como a lã de um cordeiro. Pouco depois surgiu uma outra campainha-branca, depois uma outra, e a terra devastada acabou por se cobrir completamente de pétalas brancas como a neve.
Mas Lalita de nada se deu conta. Continuava a chorar. As suas lágrimas alimentavam o rio que se espalhava sem cessar. As lágrimas impediam-na de ver os jovens rebentos de carvalho e os minúsculos picos dos pinheiros que nasciam. Não via as árvores que cresciam a seus pés nem as flores que surgiam entre os seus dedos.
Um dia, ao nascer do sol, ouviu-se um canto tão puro e tocante como a música de uma flauta.
— Um pássaro! – murmurou Lalita.
Parou de chorar e abriu os olhos. Nos ramos de um ácer um pisco cantava.
Lalita riu, saltou de alegria e estendeu os braços. A ave, tão feliz quanto ela, esvoaçou e veio pousar-lhe na mão. A vida regressava à floresta. As suas lágrimas tinham sido sinceras, e a elas a terra tinha ido buscar a água e o amor necessários para que a natureza de novo brotasse. O amor permitira o regresso dos animais, dos pássaros e da sua família.
A partir desse dia os índios afirmam que, se um amor é fiel, tudo o que foi destruído renasce das cinzas, e que o amor leva sempre a melhor sobre o ódio.

Kenneth Steven
Le songe de la forêt
Paris, Ed. Gründ, 2002
tradução e adaptação

O grande continente azul - J. J. Letria

Eu sou a água do mar,
a água de todos os mares,
a água azul, verde ou cinzenta
que liga os continentes,
as ilhas, as línguas de terra
onde o trigo cresce,
onde os pássaros fazem ninho,
onde as cidades despertam,
onde as mãos amassam o pão,
onde as plantas e as pedras
se casam em manhãs de sol
quando chega a Primavera.

Por cima da minha cabeça
está o céu e quem diz o céu
diz a noite e o dia,
diz a manhã e a tarde,
o lençol de nuvens
que guarda a chuva,
o vento e a geada.

Sou habitada pelos peixes,
que são os meus melhores amigos,
os pequenos cavaleiros das ondas
que viajam comigo
até às praias, até às baías,
e voltam comigo para o fundo,
enfeitados de algas e corais.

Gosto dos peixes
e eles gostam de mim
como só os peixes sabem gostar,
batendo as pequenas barbatanas
quando estão contentes,
quando querem que se saiba
que estão felizes.

Eu sou a água do mar,
a água de todos os mares,
dos oceanos imensos
ou dos pequenos mares quietos
onde o sal é tanto
que faz arder os olhos
só de olharmos para eles.

Tenho alimento bastante
para dar de comer
a todos os meus filhos
e também aos filhos da terra,
às bocas que pedem mais pão.
Habita em mim a riqueza:
o ouro, o petróleo, o carvão.
Por isso me cobiçam,
me furam o corpo
à procura de novas riquezas.

Não quero para mim
aquilo que as minhas águas
escondem e protegem.
Mas só darei ao homem
aquilo que o homem
souber usar, trabalhar, melhorar.
Não quero o ouro
para me adornar,
o petróleo para me mover,
o carvão para me aquecer.
A minha riqueza é de todos,
mas é preciso que saibam
merecê-la, aumentá-la, amá-la.

Há quem me chame
grande continente azul
e eu gosto deste nome,
porque é bonito
e porque gosto do azul
que é a minha cor preferida.
Azul de água e de vento
de brisa e de espuma;
azul do céu de Junho
reflectido nas escamas de prata
dos peixes voadores.
Gosto de ser continente,
mas continente de água,
o maior de todos,
o mais fundo e secreto.
Gosto das estrelas do mar,
dos búzios e das conchas
e tenho uma guarda
de cavalos marinhos
que me acompanha
para onde quer que eu vá.

É no meu rosto de água
que as estrelas e os astros
se vêem ao espelho,
se miram e embelezam.
É no meu rosto de espuma
que as crianças constroem
castelos de sonho e areia.
E como eu gosto das crianças!
Queria ser um grande,
um enorme jardim verde
para elas poderem brincar
abrigadas de todas as tempestades.
Se às vezes me zango
e me torno temporal,
acreditem que não é por mal.
É só porque não gosto
que me sujem as águas
com óleo de navios,
que me estraguem o sono
com ruídos de motores,
que me manchem o azul
com lixo e nafta.
Sou irmã dos ventos,
dos astros e das estações,
das quatro estações que o ano tem,
dos doze meses
em que elas se repartem.
E digo: o que é meu
também é vosso.
Se estiverem comigo
estarei convosco: com os pescadores,
com os navegadores solitários,
com os astros e as auroras boreais.
Eu sou a água do mar,
a água de todos os mares,
de todos os oceanos,
do Atlântico, do Índico, do Pacífico.
Sou casa, celeiro, refúgio.
Todos os dias aprendo novas coisas
que vale a pena aprender:
nomes de plantas, de rios, de cidades.
Quero ter a cor do sonho,
o cheiro da maresia
e do peixe fresco.
É em mim que começa o azul
e também a viagem do sol
à superfície das águas.
A viagem dos homens à descoberta.






José Jorge Letria
O Grande Continente Azul

Mafra, Livros Horizonte, 1985
adaptado

05/07/2007

SOS Terra - Irmã Rose Fernando

Além-Mar
Maio 2001

Excertos



A Terra corre perigo, e com ela todas as maravilhas da Criação. A actividade humana produziu efeitos irreversíveis na água, nos mares,
nos gelos, nos solos, nas florestas; e tem vindo a acelerar a extinção de animais e plantas, que estarão a desaparecer a um ritmo de 27 mil espécies por ano. No dia 19 de Abril, quando se assinalou um pouco por todo o Mundo o Dia da Terra, não havia razões para festejar: os Estados Unidos da América acabavam de se desligar do protocolo de Quioto,
uma pouco ambiciosa mas pioneira tentativa de reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito de estufa. E a sua acumulação na atmosfera que está a causar o aquecimento do clima e, paralelamente,
catástrofes naturais cada vez mais frequentes.
SOS Terra! É tempo de parar, escutar as suas queixas, olhar as suas e as nossas feridas. Porque é urgente reflectir, educar e agir.



Equilíbrio ecológico: desafio do século XXI

A crise ecológica põe em risco a humanidade no seu conjunto. Enfrentá-la implica agir depressa, e a vários níveis. Sem esquecer que o equilíbrio ambiental é impossível numa sociedade global profundamente desequilibrada pela injustiça.A crise que o mundo atravessa neste princípio de século e de milénio é a primeira à escala global que a humanidade enfrenta. Ao mesmo tempo espiritual, social e ecológica, tem a sua origem em rupturas que alastram a todas as dimensões do ser humano: no corte de relações com Deus, connosco próprios, com os outros e, cada vez mais, com a Natureza.
Foi nos anos 60 que se começou a falar e a escrever sobre a necessidade de defender o meio ambiente. Quatro décadas volvidas, tornou-se óbvio que se trata de uma questão de sobrevivência – dos animais, das plantas, mas também do Homem. E que não é possível abordá- la separadamente: o equilíbrio ecológico é impossível numa sociedade global profundamente desequilibrada pela injustiça.
Um esforço sério para proteger o meio ambiente e para promover o desenvolvimento dos povos que foram expulsos do banquete da sociedade de consumo não será possível sem uma profunda reforma das estruturas que alimentam a pobreza e a exclusão de dois terços da humanidade. A promessa de um novo céu e de uma nova terra mantém-se. Mas só se cumprirá se estivermos preparados para reatar as relações que negligenciámos.
O planeta Terra não poderá suportar durante muito tempo os nossos actuais padrões de consumo. Há cerca de 60 anos, a população mundial era de 1,6 mil milhões. Hoje, já ultrapassámos os seis mil milhões. E, segundo as projecções das Nações Unidas, no ano 2050 atingiremos os nove mil milhões. A Terra pode parecer-nos imensa, mas os seus recursos são finitos. Há meio século, Gandhi dizia: «Há que chegue para as necessidades de todos, mas não para a ganância de toda a gente.» Entretanto, em precisamente 50 anos, consumimos mais de 50 por cento da água potável e das reservas de energia do planeta, e destruímos mais de 50 por cento das suas florestas. A situação precária em que nos encontramos é em grande parte atribuível a um excesso de consumo. De que são responsáveis os 20 por cento que vivem nos países desenvolvidos, e não os 80 por cento de pobres que habitam em dois terços do globo: somos nós, os ricos, que gastamos 86 por cento dos recursos mundiais.
Os grandes defensores da economia de mercado livre parecem ignorar o que se passa com esta esfera azul que nos assegura a vida. Por isso promovem o consumo desenfreado, o usa e deita fora, esquecendo-se que quatro quintos da população mundial não dispõem de meios para satisfazer as necessidades básicas, destruindo o meio ambiente e comprometendo a subsistência das gerações futuras.
Na encíclica que dedicou à vida, João Paulo II enumerou os vários aspectos da cultura da violência e da morte em que estamos mergulhados, e referiu especialmente a opressão a que ela sujeita a humanidade e a Criação no seu conjunto. A dimensão dos atentados é bem dada por Thomas Berry no livro O Sonho da Terra: Estamos a interferir à escala geológica e biológica. Mudando a química do planeta, alterando os grandes ciclos da água, saturando o ar e o solo de produtos tóxicos, a tal ponto que não poderemos jamais restituir-lhe a sua pureza original. Estamos a transtornar todo o ecossistema terrestre, que, ao longo de milhares de milhões de anos, produziu uma tão magnífica parada de formas vivas. De caminho, estamos a fazer desaparecer milhares de espécies – pássaros, peixes, insectos, répteis, vertebrados e mamíferos; plantas, árvores, árvores de fruto… Segundo E. O. Wilson, um biólogo de Harvard, todos os anos desaparecem 27 mil espécies.
As formas de violência são inúmeras. Neste preciso momento, 34 conflitos regionais semeiam a devastação entre os seres humanos, mas também na Natureza. Não só a guerra mata e devasta. As instituições financeiras internacionais, entre as quais avultam o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a Organização Mundial do Comércio, propagam a violência institucionalizada própria de uma cultura económica violenta, um conflito velado mas generalizado que faz com que os vencedores – os ricos – fiquem mais ricos e os vencidos – os pobres – cada vez mais pobres. Pelo simples facto de promoverem as monoculturas nos países do Sul, estão a semear a degradação ambiental e a afectar a biodiversidade.
A destruição do ambiente atinge em primeiro lugar as mulheres e, sobretudo, as mulheres pobres dos países pobres: São as mulheres quem mais sofre quando não há água limpa para beber, quando falta o combustível e um meio salubre. Porque sabem o efeito que isso tem sobre as suas famílias, percebem melhor como o equilíbrio natural é precário, escreveu a teóloga Aruna Gnanadason.


Educar é preciso
Passar de uma irresponsável indiferença a uma política consciente que difunda uma justiça ecológica diz respeito a cada um dos seis mil milhões viajantes da «nave Terra». Para que a viagem prossiga, há que pensar que a maior parte dos povos ricos consome como se não existisse um amanhã. E que os pobres, levados pela intensa publicidade difundida até ao mais remoto recanto do planeta, tendem a seguir-lhes os passos. A tecnologia transformou por completo os padrões dos países industrializados, a nível do trabalho e da família, mas também no campo da comunicação, do lazer, da alimentação e da saúde, e transformações semelhantes estão em curso nos mais prósperos países em vias de desenvolvimento.
Um relatório recentemente publicado por um conjunto de 700 cientistas mostra que a situação é bastante mais grave do que há uns tempos se poderia prever. Segundo o documento, a temperatura do globo poderá subir até 5,8 graus ao longo deste século, e alguns dos ecossistemas já estão a dar o alerta: a camada de gelo que cobre o Árctico «emagreceu» cerca de 42 por cento; a degradação ambiental está na origem de catástrofes naturais de dimensões cada vez maiores e cada vez mais frequentes. Se não se reduzir desde já a emissão dos gases que causam o efeito de estufa, o aquecimento global poderá custar à humanidade qualquer coisa como 300 mil milhões de dólares/ano durante o próximo meio século. Ou seja: se os líderes internacionais não agirem de imediato, a economia global poderá vir a sofrer um grave abanão; calcula-se que as catástrofes naturais tenham causado, só na última década, prejuízos da ordem dos 608 mil milhões de contos.
Proximamente, haverá duas excelentes oportunidades para agir e consciencializar a opinião pública internacional: a Organização das Nações Unidas para as Alterações Climáticas vai reunir-se em Bona, na Alemanha, durante o mês de Julho; e, em 2002, será debatida e eventualmente adoptada pela ONU a Carta da Terra.
Porém, a chave da mudança reside na educação: formar é transformar. Porque há pessoas com um elevado nível de educação que, na realidade, são ignorantes em matéria de crise ecológica. Porque há outras que, apesar de bem informadas, se recusam a mudar o seu estilo de vida. Há grandes teólogos e grandes especialistas em espiritualidade, psicologia e sociologia que não percebem a urgência da tarefa. No seio das próprias comunidades religiosas se têm evitado ou adiado opções ou manifestações que envolvam riscos e mudanças estruturais. Os missionários, que reconhecem a necessidade de repensar à luz dos nossos dias o seu papel no mundo moderno, têm de admitir que a ecologia é parte integrante da sua missão.



segue: SOS Terra (cont.) Aquecimento do clima: catástrofe global

SOS Terra (cont.) - Irmã Rose Fernando

Além-Mar
Maio 2001
Excertos



Aquecimento do clima: catástrofe global

O clima está a aquecer. Calcula-se que, até ao final do século, a temperatura média poderá aumentar até 5,8 graus. As catástrofes naturais tornar-se-ão então a norma,nações inteiras acabarão por desaparecer.

Durante muito tempo, os cientistas hesitaram. Como os ciclos climáticos são longos e dependem de uma inúmera e extremamente complexa série de factores, acreditavam estar a assistir a um aquecimento global, mas não sabiam se deviam atribui-lo a causas naturais, que o Homem não poderia portanto alterar, ou à intervenção humana, e consequentemente passíveis de correcção. Ultimamente, porém, gerou-se um consenso na comunidade científica. Já se sabe que o globo está de facto a aquecer, e que esse aquecimento terá efeitos desastrosos para a humanidade, se a comunidade internacional não agir depressa e concertadamente.
As previsões até pioraram. Calcula-se agora que, até ao final do século, a temperatura média à superfície poderá aumentar até 5,8 graus, e sabe-se que tanto mais subirá quanto maior for a acumulação na atmosfera dos gases responsáveis pelo efeito de estufa. As calamidades naturais repetidas e de uma intensidade sem precedentes conhecidos – desde as repetidas cheias em Moçambique às chuvas torrenciais em Portugal e um pouco por toda a Europa, passando por secas mais intensas e prolongadas, furacões e tufões mais frequentes e devastadores e alterações dramáticas das correntes oceânicas – aí estão para nos fazer temer as consequências.
O efeito mais global e temível, que passa pelo degelo nos pólos e por uma subida do nível dos mares, é quase difícil de imaginar. Sabe-se que, mesmo com uma ligeira subida das águas, vários Estados insulares irão desaparecer e muitas zonas costeiras ou situadas junto à foz dos rios, precisamente aquelas em que se concentram grande parte das cidades e uma boa parte das principais actividades económicas, estão condenadas a ficar alagadas.
Durante o último século, o nível dos mares subiu entre 10 e 25 centímetros, devido à expansão térmica dos oceanos. Mas os cientistas calculam que poderá vir a subir, ao longo dos próximos cem anos, uma média de 5 centímetros por década; alguns cálculos sugerem mesmo que no final deste século a subida poderá ser de um metro.
A cadeia do clima é extremamente intricada. Veja-se: o aumento de temperatura já verificado nas regiões polares é responsável pela libertação dos gases que a camada de gelo do Árctico foi retendo ao longo de milénios, contribuindo assim para agravar o efeito de estufa; uma pequena alteração da temperatura da água dos oceanos tem efeitos imprevisíveis nas correntes, na deslocação dos cardumes, na vida marinha e também, de uma maneira geral, nas condições climáticas a que estão sujeitos os habitantes da Terra: uma ligeira subida basta para matar os recifes de coral e o sem-número de criaturas que deles dependem.
As alterações afectam todos os homens e todas as criaturas vivas, mas terão um impacto maior nos mais pobres e nas zonas já afectadas por condições climáticas extremas. A organização Christian Aid calcula que, no ano 2020, três quartos da população mundial enfrentarão a ameaça, ora de secas ora de cheias. Outra estimativa: os «refugiados ecológicos» poderão atingir os 25 milhões. Há que ter em conta que os mais pobres serão também aqueles que mais dificilmente se adaptarão às novas condições e a tudo aquilo que acarretam: o stress térmico, o alastramento das doenças tropicais propagadas por insectos, culturas agrícolas perdidas ou imprevisíveis, etc.
Os países ricos do Norte reagirão, naturalmente, melhor, embora o desastre lhes seja em grande parte atribuível: 80 por cento das emissões do dióxido de carbono que, ao longo dos últimos 150 anos, se foram acumulando na atmosfera são da sua inteira responsabilidade.


Dívida ecológica

Só em 1990 os governos começaram a discutir em conjunto com os cientistas o aquecimento global. Em 1992, na Cimeira da Terra do Rio de Janeiro, seria adoptada e posteriormente ratificada a Convenção Quadro das Alterações Climáticas. Em 1997 foi elaborado o Protocolo de Quioto, em que os países mais ricos se comprometem a reduzir as emissões de gases responsáveis pelo efeito de estufa em 5,2 por cento. Em Março deste ano, o Presidente George Bush afirmou que os EUA não iriam ratificá-lo, alegadamente para defender a economia norte-americana, a mais poderosa e a mais poluente do mundo.
Organizações, tanto dos países do Norte como dos países do Sul, têm vindo a insistir numa abordagem que não se limite ao controlo das emissões. Está neste momento em curso uma Campanha Internacional para o Reconhecimento e a Reivindicação da Dívida Ecológica. Entende-se por «dívida ecológica» a responsabilidade acumulada pelos países do Norte devido à destruição causada pelos seus sistemas de produção e pelos seus padrões de consumo, que se traduziria numa reparação devida aos países que, primeiro, foram espoliados das suas riquezas naturais e, depois, passaram a sofrer as consequências de um crescimento de que não usufruem.


Estado do Planeta

OCEANOS. Mais de dez mil milhões de toneladas de produtos poluentes espalham-se pelos oceanos sob a forma de sedimentos, detritos provenientes dos esgotos, fertilizantes, produtos químicos tóxicos, substâncias radioactivas, petróleo, etc. Em todo o mundo, a maior parte dos desperdícios são descarregados nas zonas costeiras, ou seja, nas áreas onde a actividade piscatória é mais intensa. Mais de 70 por cento das espécies acusam os efeitos de uma pesca desregrada e excessiva, que não permite a regeneração dos cardumes e algumas já entraram em colapso. Os produtos químicos tóxicos são detectáveis desde o Antárctico até ao Árctico. Os recifes de coral, ecossistemas de uma fragilidade extrema que dão abrigo a mais de 25 por cento da vida marinha, estão a ser destruídos a uma velocidade assustadora: se o ritmo se mantiver, dentro de quatro décadas 70 por cento terão desaparecido (até aqui já desapareceram 25 por cento).
ÁGUA. Quarenta por cento da população mundial não dispõem de água potável. Oitenta por cento das doenças que afectam os habitantes de dois terços do globo estão relacionadas com o estado da água e com o saneamento: mais de dois milhões, a maior parte crianças, morrem todos os anos devido a diarreias provocadas por essas deficiências. Quer se trate de água para beber, cozinhar ou lavar, um terço dos lares do mundo abastece-se numa fonte situada no exterior da casa, o que frequentemente obriga as mulheres e as meninas a percorrerem grandes distâncias para a obterem. Cada vez mais na mão de empresas privadas, o abastecimento está a tornar-se um negócio como outro qualquer: só no ano passado, na Bolívia, o preço da água potável subiu 36 por cento.
FLORESTAS TROPICAIS. As florestas tropicais são o mais antigo ecossistema do planeta e dão guarida a 60 por cento das espécies existentes na Terra: em metade do espaço ocupado por uma cidade como Lisboa, é possível encontrar 545 espécies de pássaros, 100 de libelinhas e 729 variedades de borboletas; na floresta de um país da dimensão da Costa Rica coexistem 205 tipos de mamíferos, 845 variedades de pássaros e dez mil de plantas; numa região montanhosa, só num hectare de floresta pode haver uma centena de diferentes espécies de árvores; a baía do Amazonas armazena dois terços da água da Terra, e em apenas 12 hectares de floresta amazónica é possível encontrar cerca de 300 espécies de árvores. As florestas tropicais asseguram entre 25 a 40 por cento dos produtos farmacêuticos; e preservam 70 por cento das três mil plantas que contêm substâncias capazes de combater o cancro; desde vários tipos de óleos à cera, à borracha e ao látex, são diversos os produtos industriais que nos fornecem. Pense-se no que já se perdeu: 80 por cento das florestas que em tempos cobriram a Terra já foram abatidas, e o seu corte provocou o extermínio de milhões de espécies. São as populações indígenas as mais afectadas pela destruição da floresta, uma vez que, quando esta desaparece, desaparece também a sua forma de sustento; quando são forçadas a partir, perde-se o seu precioso saber sobre as plantas e os animais que dela dependem.
BARRAGENS. Em vez de serem a solução milagrosa que em tempos se apregoava, as grandes barragens tiveram um pouco por todo o mundo um impacto ecológico e social frequentemente devastador. Porque cortaram e transformaram o curso dos grandes rios, levando ao desaparecimento de muitos peixes e plantas de água doce. Porque as suas albufeiras alagaram as terras mais férteis, que eram o habitat de muitas espécies. Porque entre 60 a 80 milhões de pessoas foram escorraçadas das suas casas e das suas terras, perdendo o seu sustento e engrossando as multidões obrigadas a deslocar-se para as cidades (só na Índia são 33 milhões). Porque se calcula que as suas vantagens beneficiem sobretudo os que já têm uma vida desafogada. Conscientes das suas desvantagens, os países industrializados já começaram a demolir parte das suas barragens. Porém, mais 1600 estão em construção, em 42 países.
SOLOS. Mais de 40 por cento dos terrenos agrícolas da Terra estão seriamente degradados. Vinte por cento dos terrenos correm perigo de virem a tornar-se desérticos: é o que acontece anualmente a 23 mil metros quadrados de terrenos férteis. A desertificação tem custos elevadíssimos – a nível ecológico, mas também social, económico e humano. O deserto progride sempre que a erva, os arbustos ou as árvores desaparecem, permitindo que a chuva e o vento levem a fina camada de solo arável. A erosão do solo causa um decréscimo na produção de alimentos.
BIODIVERSIDADE. Os paleontólogos identificaram seis extinções em massa, ocorridas ao longo dos últimos 500 milhões de anos; os peritos em biodiversidade dizem que estamos agora a assistir à sétima. Das 4630 espécies de mamíferos actualmente existentes, 25 por cento correm um significativo risco de extinção, e o mesmo se passa com 11 por cento das 9675 espécies de pássaros; 976 espécies de árvores correm um sério risco. Nas últimas décadas, desapareceram 20 por cento das espécies de água doce e calcula-se que, nos próximos 50 anos, o mesmo se passe com metade de todas as espécies existentes à face da Terra. Ao longo da História, para se alimentar, o Homem cultivou ou colheu sete mil espécies de plantas; hoje, apenas 20 fornecem 90 por cento do que consumimos. O milho, o trigo e o arroz são responsáveis por mais de metade.
EFEITO DE ESTUFA. Os gases responsáveis pelo efeito de estufa são poluentes que se acumulam na atmosfera, capturando, como numa estufa, o calor do Sol e acelerando o aquecimento global. A humanidade está a alterar a composição química da atmosfera através do consumo excessivo dos combustíveis de origem fóssil (carvão, petróleo, gás natural) utilizados para produzir electricidade, na indústria e nos transportes. Dos vários gases, um dos mais nocivos é o dióxido de carbono: a sua presença na atmosfera aumentou 30 por cento desde meados do século XIX, e calcula-se que, se nada for feito para cumprir os acordos internacionais que prevêem a sua redução, aumentará 60 por cento até 2040. A desflorestação, que liberta o carbono das árvores, é responsável por 20 por cento das emissões de carbono, um dos factores que favorecem as alterações climáticas. Desde a II Guerra Mundial, o número de veículos motorizados existentes no planeta – uma das grandes fontes de dióxido de carbono – passou de 40 para 680 milhões.
CAMADA DE OZONO. Os clorofluorcarbonetos (CFC) contribuem em 23 por cento para os gases que estão na origem do efeito de estufa, mas, ao mesmo tempo que causam o aquecimento global, provocam também a rarefacção da camada de ozono, que protege a Terra e os homens da agressão dos raios ultravioletas. Os CFC, libertados por uma parte dos aerossóis e por aparelhos de refrigeração (sistemas de ar condicionado ou frigoríficos), acumulam-se na atmosfera e estão a aumentar à média de sete por cento ao ano. A camada de ozono está a diminuir, mas não de forma uniforme: os maiores buracos encontram-se sobre os pólos. Os efeitos do aumento da radiação ultravioleta: mais cancros de pele; mais doenças de olhos; danos no sistema imunitário; colheitas menos abundantes e perturbações nos sistemas oceânicos.

03/07/2007

Uma árvore na lua - Jean Chalon

Daphne é uma menina que quer ser uma árvore. Gosta tanto de árvores que acha nada haver de mais belo à face da terra. “Ou da lua”, acrescentam, a brincar, os avós. Daphne passa sempre as férias com os avós, que afiançam que a neta está, muitas vezes, “na lua”. Enganam-se, porque Daphne não está “na lua”.
Está nas árvores. Nas do jardim dos avós, nas da floresta mais próxima, e sobretudo naquela que é considerada o tesouro da família: a Árvore das Quatro Estações. Esta árvore tem a particularidade de ser, ao mesmo tempo, todas as árvores, em todas as estações.
O que é muito prático para Daphne. Se lhe apetece estar no Natal, instala-se nos ramos do Inverno e colhe visco e azevinho. Na ponta dos ramos da Primavera, descobre ninhos e observa os ovos a abrir. Faz colares e pulseiras com as folhas do Outono. E, num só ramo de Verão, pode colher ameixas, damascos, cerejas e figos.
Como é filha única, Daphne está habituada a estar só. Na solidão que é a sua, procura não fazer mal a nada nem a ninguém: pessoa, animal, ou planta. Melhor ainda, cuida das borboletas feridas. Abriu mesmo um hospital, onde é enfermeira. Trata dos ramos partidos das árvores com fita adesiva e consegue, graças à sua paciência, colá-los completamente. Se tivesse cartões de visita como os adultos, esses cartões diriam:

Daphne
Enfermeira de borboletas
E médica de árvores.

Quando está cansada de brincar com a Árvore das Quatro Estações, ou com as borboletas, Daphne vai para a floresta, que começa onde acaba o jardim. Trata-se de uma floresta mágica, como o são todas as florestas, onde uma menina pode passear sem medo, já que aí os animais não lutam entre si. Amam-se. Podemos ver passar, de braço dado, o coelho e a doninha, a raposa e o faisão, a corça e o lobo. Os caçadores não podem lá entrar. Sempre que tentam, rebenta uma tempestade que os molha até aos ossos, e que os obriga a arrepiar caminho. O único proveito que tiram dessa incursão é uma constipação que dura oito dias, no mínimo, sem falar de outras complicações, da bronquite e da pleurisia.
Nesta floresta mágica, Daphne vê e ouve coisas muito engraçadas. Encontra uma poupa. Como é a primeira vez que vê um pássaro destes, exclama:
— Que animal é este? Dir-se-ia um antílope, pelos chifres, e uma zebra, pela cauda.
— Não sou uma zebra, embora seja raiada de preto e branco — corrige o pássaro. — Também não sou um antílope, embora pareça ter chifres na cabeça. São chifres de plumas que formam uma poupa, e daí o meu nome. Sou a Poupa, a mais bela das Poupas, pois sou a Rainha das Poupas.
— Majestade — saúda Daphne, fazendo uma vénia ─ queira aceitar as minhas desculpas.
— Estão aceites — responde a Poupa, que é boa pessoa.
Em seguida, vão passear juntas. Quando Daphne entra na floresta mágica, a Poupa poisa no seu ombro e começa a contar-lhe os últimos acontecimentos: o desabrochar de um cogumelo que cheira a violetas, o nascimento de uma fonte dourada, o casamento de uma libelinha com um alecrim frisado.
De uma outra vez, Daphne encontra um seixo no caminho, todo branquinho e muito redondinho. Dir-se-ia um ovo de mármore. É tão bonito que Daphne o mete no bolso. O seixo protesta imediatamente, já que não gosta de estar na escuridão do bolso. Só gosta da luz.
— Outrora — conta ele a Daphne, surpreendida por ouvir uma pedra falar — quando os deuses viviam com os homens, e tinham estátuas nos templos, eu era o dedo de uma deusa. Os deuses e os templos desapareceram e, no meio da confusão, a deusa perdeu a cabeça e os braços. Os braços com as mãos, e as mãos com os dedos, foram dispersos pela natureza. Pouco a pouco, perderam as formas que o escultor lhes dera e tornaram-se o que antes tinham sido: simples pedras.
Esta é a história do Pequeno Seixo (assim se chama a pedra), que, do seu esplendor antigo e dos templos erguidos no cimo das colinas, conserva o gosto pela luz. Daphne promete-lhe que o porá aos pés da Árvore das Quatro Estações, do lado do Verão, para assim estar sempre ao sol. Com é bem-educado, o Pequeno Seixo desfaz-se em agradecimentos.
Contando com a Árvore das Quatro Estações, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, Daphne já tem três amigos. Vai ter um quarto, ou melhor, uma quarta: trata-se de uma feiticeira.
Mesmo no meio da floresta, existe um carvalho enorme: é lá que habita a feiticeira. Escolheu morar ali, porque também gosta de árvores. Construiu um ninho para si mesma, à semelhança dos pássaros, mas à sua medida: um metro e cinquenta centímetros. Como os habitantes da floresta lhe querem tanto bem quanto a respeitam, chamam-lhe “Venerável”. Quando ouve o epíteto, a feiticeira ri-se de si própria e diz: — Veneranda Mãe, sou a Venerável Ninho de Pássaro.
Venerável Ninho de Pássaro: assim lhe chamam os amigos íntimos, entre os quais se conta Daphne, deslumbrada e conquistada pelas proezas da feiticeira. Com efeito, é ela que faz desabar a tempestade sobre os caçadores.
A Venerável Ninho de Pássaro ensina a Daphne imensas coisas sobre as árvores: os seus hábitos, os seus costumes, os seus segredos.
— O que é uma árvore? É alguém que não tem mãos para se defender, nem pés para fugir.
E acrescenta:
— As pessoas aproveitam-se disso para as massacrar. Daphne, nunca se deve maltratar uma árvore, tal como nunca se deve dizer a uma criança que é estúpida. O que é uma criança? É um adulto que ainda não teve tempo de crescer.
O mês de Julho passa, enquanto Daphne se diverte com os amigos e escuta a Venerável Ninho de Pássaro. Chega o mês de Agosto. Um dia, no início do mês, o avô entra em casa e põe os jornais sobre a mesa.
— Vejam — diz, consternado, dirigindo-se à avó e a Daphne.
Todos os jornais trazem a mesma notícia:

SOS Floresta
M M ataca

Daphne pergunta o que quer dizer MM. MM quer dizer Máquina Malvada, aquela que engole árvores às centenas e devora uma floresta inteira de uma só vez.
As florestas ameaçadas lançam um apelo, um SOS.
Por ora, a Máquina Malvada não ataca os seres humanos, contentando-se com aterrorizá-los com o seu barulho infernal e os seus odores pestilentos. Tresanda e mata. É decretado o estado de tristeza geral no país. O que se pode fazer? É Verão. As pessoas estão na praia ou na montanha. Na aldeia da floresta mágica, só há velhos e crianças como Daphne. Cada um se fecha na sua casa quando a Máquina Malvada desfila pelas ruas, arrotando vapores de gasolina e ameaçando as árvores, mesmo aquelas que se escondem nos jardins:
— Nenhum muro e nenhuma grade conseguirão deter-me quando eu tiver fome.
Daphne decide salvar a floresta e libertar o seu país da Máquina Malvada.
Para o efeito, convoca a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, que aprovam a sua resolução. É claro que é preciso acabar com ela, e já. A Árvore das Quatro Estações, que vê os seus dias contados, definha. Na floresta mágica, os animais não ousam sair das suas tocas e passam fome e sede. É uma situação intolerável. Mas o que fazer para destruir a Máquina Malvada?
Daphne, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo partem em busca dos conselhos e da ajuda da feiticeira. A Venerável Ninho de Pássaro está desesperada. Nada pode fazer contra a Máquina Malvada. A tempestade que ela enviava contra os caçadores já não lhe obedece.
— Antes quero molhar os caçadores do que sujar as minhas gotas de chuva e os meus trovões com esta máquina gordurenta que transpira óleo queimado — repete, obstinada, a tempestade.
Exasperada com tal atitude, a Venerável Ninho de Pássaro anuncia aos amigos que se vai embora de vez, que deixa a floresta para se refugiar em qualquer parte do céu.
— Quem gostar de mim que me siga — diz a feiticeira. Posso transformar o meu ninho em tapete voador e podemos partir imediatamente.
Ninguém quer, ou pode, partir imediatamente. Daphne tem de avisar os avós, e a Rainha das Poupas o seu povo.
Antes de partir para sempre, a Venerável Ninho de Pássaro revela a Daphne uma fórmula mágica, que deve ser aprendida de cor, não pode ser divulgada, e só deve ser utilizada em caso de perigo extremo:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

— Nunca imaginei que a Venerável Ninho de Pássaro fosse tão egoísta e nos abandonasse quando mais necessitamos dela — queixa-se a Rainha das Poupas
Ao que Daphne respondeu:
— Não faz mal. Acabaremos por vencer. Os fortes serão vencidos. Nós venceremos porque somos os mais fracos.
— Está tudo ao contrário — lamenta a Rainha das Poupas.
— A Daphne tem razão — assevera o Pequeno Seixo. A Máquina Malvada é muito forte, mas deve ter uma fraqueza escondida. Se a encontrarmos, podemos tirar partido dela e bater a Máquina. Quando era o dedo de uma deusa, falava-se muito, nos templos, de um rapazinho chamado David, que tinha conseguido derrubar um gigante, Golias, ao acertar-lhe com uma pedra em plena testa. Serei eu essa pedra e Daphne será David.
É preciso salvar as árvores. O tempo urge. Fica decidido, por unanimidade, que Daphne se disfarçará de árvore para chamar a atenção e despertar o apetite da Máquina Malvada. É fácil: Daphne só tem de vestir o casaco de bombazina castanha do avô, que parece mesmo uma casca de árvore. Na cabeça, usará a capelina com flores da avó.
— Parecerei uma árvore florida a passear — comenta.
Meu dito, meu feito. Disfarçada de árvore, Daphne passeia na estrada. Leva o Pequeno Seixo dentro da mão cerrada. Este suplica:
— Não me apertes tanto que me abafas. Não te esqueças do nosso plano de ataque. Logo que a Máquina Malvada abra a boca, atiras-me lá para dentro. Acredita que um pedaço de mármore, um antigo dedo de deusa, que teria hoje três mil anos, é mais difícil de digerir do que uma árvore tenra ou uma floresta mágica. A Máquina Malvada vai morrer de indigestão. Quando estiver morta, libertas- me. Não me deixes no meio daquele ferro-velho.
— Claro que não. Agora cala-te, que já a ouço aproximar-se — sussurra Daphne.
Ei-la que chega, negra de óleo e malvadez, qual monstruosa vespa feita de ferro, com os olhos salientes e em forma de ampola.
— Eis uma árvore que se passeia. Vou comê-la para ganhar apetite.
Abre os maxilares e mostra uma fila de dentes, de tal forma pontiagudos e feios que Daphne, apanhada de surpresa, erra a pontaria.
O Pequeno Seixo acerta no olho da Máquina Malvada, que estremece de dor e de cólera. Enfurecida, consegue arrancar o Pequeno Seixo da pálpebra e atira-o com tal força que a pedrinha desaparece lá para as bandas do sol. A deusa esperava-a, com um sorriso radioso:
— Eis-te, enfim, pequeno dedo. Faltavas-me tu para poder entrar inteira no paraíso das deusas.
Daphne e a Máquina Malvada ficam frente a frente.
— Vou devorar-te — ruge a máquina, lançando sobre Daphne um sopro eléctrico de tal forma potente e viscoso que a deita ao chão. A menina reúne as forças que lhe restam para se levantar e correr para a floresta, a fim de se refugiar no carvalho. Daphne corre e os amigos acorrem em seu socorro. Em vão.
Nem a Rainha das Poupas, nem as borboletas conseguem abrandar a Máquina Malvada, que é cada vez mais veloz. Aproxima-se de Daphne, sem apelo nem agravo. Daphne sente-se perdida e é então que se lembra da fórmula mágica que a Venerável Ninho de Pássaro lhe confiara:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

O desejo é formulado com tanta força que é de imediato realizado. Daphne levanta voo sob os aplausos da Rainha das Poupas e dos amigos da floresta, enquanto a Máquina Malvada se debate sozinha e, enraivecida, se reduz a um montão de óleo fumegante.
Daphne sobe, sobe, atravessa as fronteiras celestes, e percorre o país da Luz. De passagem, cumprimenta a feiticeira Venerável Ninho de Pássaro, o Pequeno Seixo, a nuvem, o peixe, a onda, os signos do Zodíaco e a Ursa Maior.
Chega finalmente ao centro da lua e aí transforma-se em árvore. A árvore da lua, que podemos ver nas noites de lua cheia…

Jean Chalon/Martine Delerm
Un arbre dans la lune
Éditions du Rocher, 2003
Tradução e adaptação