17/07/2007

Viagem ao alto de um ramo - Alexandre Honrado

Trepa devagar, a arrastar o corpo
inteiro. Trepa o raminho, mais
parece um arranha-céus, mais
parece um arco-íris, lá em
baixo um formigueiro.

Quem é pequenino, do tamanho de um
botão, do tamanho de um segredo
pequenino, parece perdido no
mundo, num mundo de gigantes.
Cá de baixo, as folhas lembram
barrigas de elefantes.
As flores que abrem são
chapéus de chuva preguiçosos...

Trepa e vai contente, assim feliz
por trepar, que no cimo do raminho
há muita coisa para ver,
muito mais para contar.
Mil coisas para olhos curiosos.

Lá no fundo corre um rio,
corre apressado direito ao mar.
Para se ver o rio
é preciso trepar mesmo ao alto do raminho.
Mas não se vê de lá o mar…
Agora há um problema porque o ramo
Tem uma folha que é preciso contornar.
Trepar, assim devagar, é mesmo muito difícil,
difícil até cansar. Vem o vento, abana o ramo.
Credo, que aflição! Quem é mesmo
pequenino vive sempre em desalinho.

Voa o pássaro e observa, espreita com atenção:
— Para onde sobes, amigo?
— Vou ver o céu e o rio e o que mais se pode ver.
Vai o pássaro para o ninho fica o ramo a meio caminho.

Vai devagar, é claro, e já se sente cansado.
Trepar, trepar, trepar.
E o vento, endiabrado, que não pára de soprar.
Chega o ouriço pelo chão, levantando o nariz e diz:
— Boa vista aí do alto?
— Por enquanto é só trepar.
Quando lá chegar ao cimo,
mais terei para te contar.

Trepar, trepar, devagar. Bate-lhe o sol na cabeça.
O tronco, só por desfeita, tem outra folha travessa.
E o vento, turbulento, que não deixa de soprar.
— Queres ajuda, queres que assopre?
— Obrigado, meu amigo.
Mas eu penso que consigo
chegar lá sem a tua ajuda.

A borboleta dá pinotes,
mostra as cores todas que tem.
Se usasse laçarotes, talvez lhe ficassem bem…
— Boa viagem, boa subida.
Queres uma asa emprestada? —
diz a borboleta colorida
descarada, ladina e muito atrevida.
— Cá vou na subida, não preciso da
tua asa. E o mais que me faltar
tenho eu aqui em casa.
Trepa, faz mais um esforço.
Evita as folhas do caminho.
Passear devagarinho
Também tem as suas grandezas.
Vem a joaninha, janota, faz chacota da subida.
Mostra as pintas, tão negrinhas,
parece a noite às bolinhas:
— Trepa, trepa. Se calhar, um dia hás-de chegar.
— Trepo, trepo. Se calhar, hoje mesmo vou chegar.

Já se vê uma maçã, aqui mesmo
deste lado. Subir, assim, sossegado,
deixa ver muitas belezas. Vem uma lagarta,

nas bochechas da maçã. Boceja, pede
desculpa, pergunta se é de manhã.
— Não é tal, já veio a tarde. Já o sol se
sossegou. E a lua (podes ver)
também já se levantou.

Sai a lagarta da maçã,
vem um besouro a passar:
— Isto são horas de acordar?
— Estava-se tão bem ali.
Parece que consegui
achar sítio para morar.
Trepa, trepa, e vai ouvindo,
ouve tudo o que se diz. E está
próximo do cimo, afinal como ele quis.

Lá no alto muda tudo. Há um penedo para ver,
um mundo para conhecer.
Uma casa acolá, para lá um girassol…
E digam que não é boa a vida de um caracol…



Alexandre Honrado
Viagem ao Alto de um Ramo
Porto, AMBAR, 2002

1 comentário:

Era uma vez... ou várias vezes.... disse...

Quer a minha autorização para transcrever o meu texto?
Aqui a tem. A causa é justa

Alexadre Honrado